Pintura de Julius Schnorr von Carolsfeld (1828) mostrando Rute no campo de Boaz durante a colheita
Imagem: Julius Schnorr von Carolsfeld / Wikimedia Commons (domínio público)

O livro de Rute tem apenas quatro capítulos, mas está entre as narrativas mais bem construídas do Antigo Testamento. Em poucas cenas, ele leva o leitor da fome à fartura, do luto à alegria e da solidão de uma viúva estrangeira à genealogia do rei Davi. Neste estudo, vamos observar o contexto histórico do livro, algumas palavras-chave do texto hebraico e as lições que ele oferece à igreja hoje.

Contexto histórico: “nos dias em que julgavam os juízes”

A história começa com uma marcação de tempo precisa: “Nos dias em que julgavam os juízes, houve fome na terra” (Rt 1.1, ARA). O leitor atento se lembra de como o livro de Juízes termina: “Naqueles dias, não havia rei em Israel; cada um fazia o que achava mais reto” (Jz 21.25, ARA). Foi um período de instabilidade política e espiritual. É justamente nesse cenário sombrio que Rute apresenta pessoas comuns vivendo com fidelidade.

A família de Elimeleque sai de Belém de Judá — nome que, em hebraico, significa literalmente “casa do pão” — por causa da fome, e vai para Moabe. A ironia é intencional: a “casa do pão” está sem pão. Moabe, por sua vez, era um povo vizinho com uma história complicada em relação a Israel (Gn 19.37; Dt 23.3). Isso torna ainda mais surpreendente que a heroína do livro seja uma moabita.

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Autoria e data. O livro não identifica seu autor. A tradição judaica registrada no Talmude (tratado Baba Batra 14b) atribui o texto a Samuel, mas os estudiosos discutem a data de composição; o que é certo é que o livro foi escrito depois do nascimento de Davi, já que termina com sua genealogia (Rt 4.17-22).

Lugar no cânon. Nas Bíblias cristãs, seguindo a ordem da Septuaginta, Rute aparece depois de Juízes. Na Bíblia hebraica, ele está entre os “Escritos” (Ketuvim), no grupo dos cinco rolos (Megilot), e é tradicionalmente lido na festa de Shavuot (Pentecostes), a festa da colheita — um cenário que combina com as colheitas de cevada e de trigo mencionadas no capítulo 2.

A estrutura do livro em quatro cenas

  1. Moabe: perda e decisão (cap. 1). Noemi perde o marido e os dois filhos. Orfa volta para seu povo; Rute se apega à sogra.
  2. O campo de Boaz: provisão (cap. 2). Rute respiga atrás dos segadores e é acolhida por Boaz.
  3. A eira: pedido de redenção (cap. 3). Seguindo a orientação de Noemi, Rute pede a Boaz que exerça seu papel de resgatador.
  4. A porta da cidade: redenção pública (cap. 4). Boaz resolve legalmente a questão diante dos anciãos, casa-se com Rute, e nasce Obede.

Repare que a narrativa sai de um ambiente privado (a estrada, o campo, a eira) para um espaço público (a porta da cidade), onde a fidelidade vivida em particular recebe reconhecimento diante da comunidade.

Palavras-chave do hebraico

Hesed: amor leal

A palavra hesed (Strong H2617) aparece em momentos decisivos do livro e é difícil de traduzir com um único termo: envolve bondade, lealdade, misericórdia e fidelidade à aliança. A ARA a traduz por “benevolência”. Noemi deseja às noras: “o Senhor use convosco de benevolência, como vós usastes com os que morreram e comigo” (Rt 1.8, ARA). Mais tarde, ao saber de Boaz, ela reconhece que o Senhor “ainda não tem deixado a sua benevolência” (Rt 2.20, ARA). E Boaz elogia Rute: “melhor fizeste a tua última benevolência que a primeira” (Rt 3.10, ARA).

O livro, portanto, mostra o hesed de Deus sendo refletido no hesed humano: Rute com Noemi, Boaz com Rute, e o Senhor com todos eles.

Goel: o parente-resgatador

O termo go’el vem do verbo ga’al (Strong H1350), “resgatar, redimir, agir como parente-resgatador”. Na Lei, o resgatador era o parente próximo responsável por recuperar a propriedade de um familiar empobrecido: “virá o seu resgatador, seu parente, e resgatará o que seu irmão vendeu” (Lv 25.25, ARA). Em Rute, esse dever se combina com a preocupação de preservar o nome do falecido sobre a herança (Rt 4.10), uma ideia próxima à lei do levirato (Dt 25.5-10), embora os estudiosos observem que o caso de Rute não se encaixa exatamente em nenhuma das duas leis.

No capítulo 4, um parente mais próximo tem o direito de resgate, mas desiste quando entende que isso inclui casar-se com Rute. Boaz, então, assume o compromisso publicamente: “Sois, hoje, testemunhas de que comprei da mão de Noemi tudo o que pertencia a Elimeleque” (Rt 4.9, ARA).

Kanaph: asas e manto

Um detalhe bonito do hebraico se perde facilmente em português. Em Rute 2.12, Boaz abençoa Rute dizendo que ela veio buscar refúgio sob as “asas” do Senhor. Em Rute 3.9, Rute pede a Boaz: “estende a tua capa sobre a tua serva, porque tu és resgatador” (ARA). “Asas” e “capa” traduzem a mesma palavra hebraica, kanaph (Strong H3671), que pode significar asa ou borda de uma veste. Rute, em outras palavras, pede a Boaz que seja a resposta concreta à oração que ele mesmo fizera por ela.

A providência silenciosa de Deus

No livro de Rute não há milagres espetaculares nem aparições de anjos. Mesmo assim, Deus está presente em cada cena. O texto diz que Rute, “por casualidade entrou na parte que pertencia a Boaz” (Rt 2.3, ARA). A expressão é deliberadamente discreta: do ponto de vista humano, foi acaso; do ponto de vista do narrador, que conhece o final da história, foi providência.

Estudiosos observam que as duas ações de Deus relatadas diretamente pelo narrador aparecem nas extremidades da história: o Senhor se lembra do seu povo, dando-lhe pão (Rt 1.6), e concede a Rute que conceba (Rt 4.13). Entre esses dois pontos, Deus age por meio das escolhas fiéis de pessoas comuns.

De Obede a Davi — e a Cristo

O final do livro revela seu alcance: “E lhe chamaram Obede. Este é o pai de Jessé, pai de Davi” (Rt 4.17, ARA). A viúva moabita se torna bisavó do maior rei de Israel. No Novo Testamento, Mateus inclui Rute na genealogia de Jesus: “Salmom gerou de Raabe a Boaz; este, de Rute, gerou a Obede” (Mt 1.5, ARA).

Muitos intérpretes cristãos, ao longo da história, viram em Boaz uma figura que antecipa Cristo, o Redentor que paga o preço para resgatar e acolher. É importante fazer essa leitura com cuidado — o livro não é uma alegoria —, mas o paralelo é legítimo no sentido de que o tema bíblico da redenção encontra em Jesus o seu cumprimento pleno.

Aplicações para hoje

  • Deus trabalha em tempos difíceis. O período dos juízes era confuso, mas Deus continuava conduzindo a história da redenção por meio de famílias fiéis.
  • Lealdade é uma virtude cristã. A declaração de Rute — “o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus” (Rt 1.16, ARA) — é um compromisso de aliança que desafia a cultura do descartável.
  • A graça alcança os de fora. Uma estrangeira, viúva e pobre é acolhida no povo de Deus. A igreja é chamada a refletir essa mesma hospitalidade.
  • A amargura não tem a última palavra. Noemi chegou a pedir: “chamai-me Mara, porque grande amargura me tem dado o Todo-Poderoso” (Rt 1.20, ARA). O livro termina com ela segurando um neto no colo (Rt 4.16).

Conclusão

Rute nos ensina que a fidelidade nas pequenas coisas — respigar num campo, cuidar de uma sogra, cumprir uma responsabilidade familiar — pode fazer parte de algo muito maior do que imaginamos. O Deus que conduziu Rute a Belém é o mesmo que, gerações depois, faria nascer ali o Redentor prometido.

Referências

Passagens bíblicas: Rute 1–4; Juízes 21.25; Gênesis 19.37; Levítico 25.25; Deuteronômio 23.3; 25.5-10; Mateus 1.5. Citações da Almeida Revista e Atualizada (ARA), Sociedade Bíblica do Brasil.

Imagem de capa: Julius Schnorr von Carolsfeld / Wikimedia Commons (domínio público)

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