Pintura Jonas e a baleia, de Pieter Lastman (1621), mostrando Jonas sendo lançado pelo grande peixe na praia
Imagem: Pieter Lastman / Wikimedia Commons (domínio público)

Muita gente conhece o livro de Jonas apenas pelo episódio do grande peixe. Mas o peixe ocupa só três versículos (Jn 1.17; 2.1,10). O verdadeiro tema do livro é outro: a misericórdia de Deus, que alcança até os inimigos de Israel, e o coração de um profeta que resistia a essa misericórdia. Neste estudo, vamos examinar o contexto histórico, a estrutura literária e a mensagem de Jonas.

Quem foi Jonas?

O livro apresenta “Jonas, filho de Amitai” (Jn 1.1, ARA). O mesmo profeta é mencionado em 2 Reis 14.25, onde se diz que o rei Jeroboão II restabeleceu as fronteiras de Israel “segundo a palavra do Senhor, Deus de Israel, a qual falara por intermédio de seu servo Jonas, filho de Amitai, o profeta, o qual era de Gate-Hefer” (ARA). Isso situa Jonas no Reino do Norte, na primeira metade do século VIII a.C. Gate-Hefer ficava na Galileia.

Há um contraste interessante aqui: o profeta associado à expansão das fronteiras de Israel é o mesmo enviado a anunciar juízo a uma grande cidade estrangeira — e que acabará testemunhando a misericórdia de Deus por ela.

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Nínive e a Assíria

Nínive, situada à margem oriental do rio Tigre (em frente à atual Mossul, no Iraque), era uma das grandes cidades da Assíria. O Império Assírio ficou conhecido pela brutalidade militar e, poucas décadas depois da época de Jonas, destruiria o Reino do Norte (722 a.C.). Segundo o Museu Metropolitano de Arte de Nova York, Nínive só se tornou a capital do império sob Senaqueribe (704–681 a.C.); antes disso, a sede real ficou em outras cidades, como Calá (Nimrud). A cidade foi saqueada em 612 a.C. por uma coalizão de babilônios e medos — queda anunciada pelo profeta Naum (Na 1.1).

Esse pano de fundo ajuda a entender a resistência de Jonas: Nínive representava uma potência inimiga e ameaçadora.

Estrutura do livro

O livro se divide em duas metades paralelas, cada uma iniciada pela palavra do Senhor a Jonas:

  1. Capítulos 1–2: o primeiro chamado, a fuga, a tempestade, os marinheiros, o peixe e a oração.
  2. Capítulos 3–4: o segundo chamado — “Veio a palavra do Senhor, segunda vez, a Jonas” (Jn 3.1, ARA) —, a pregação, o arrependimento de Nínive e o diálogo com Deus.

Capítulo 1: a descida de Jonas

Deus ordena que Jonas vá a Nínive, a leste. Jonas “se dispôs, mas para fugir da presença do Senhor, para Társis” (Jn 1.3, ARA). Társis é geralmente identificada com um lugar no extremo ocidente do Mediterrâneo — a direção oposta.

O narrador usa repetidamente o verbo hebraico yarad, “descer” (Strong H3381), para marcar a trajetória do profeta: ele desce a Jope (1.3), desce ao porão do navio (1.5) e, em sua oração, diz: “Desci até aos fundamentos dos montes” (2.6, ARA). Fugir de Deus é uma descida contínua.

Um contraste irônico domina o capítulo: enquanto o profeta dorme profundamente, os marinheiros pagãos oram. Ao final, são eles que “temeram, pois, estes homens em extremo ao Senhor; e ofereceram sacrifícios ao Senhor e fizeram votos” (Jn 1.16, ARA). Mesmo em fuga, Jonas acaba sendo instrumento para que estrangeiros conheçam o Deus verdadeiro.

Capítulo 2: o grande peixe e a oração

“Deparou o Senhor um grande peixe, para que tragasse a Jonas” (Jn 1.17, ARA). O hebraico diz simplesmente dag gadol, “grande peixe” (dag, Strong H1709); o texto não especifica uma baleia. No Novo Testamento, Mateus usa a palavra grega kētos (Strong G2785), que designa um grande animal marinho.

O peixe é, ao mesmo tempo, juízo e livramento. Dentro dele, Jonas ora com linguagem muito próxima à dos Salmos e conclui: “Ao Senhor pertence a salvação!” (Jn 2.9, ARA).

Capítulo 3: uma cidade inteira se arrepende

Jonas finalmente obedece. Sua mensagem registrada é curtíssima: “Ainda quarenta dias, e Nínive será subvertida” (Jn 3.4, ARA) — no hebraico, apenas cinco palavras. A reação é surpreendente: “Os ninivitas creram em Deus, e proclamaram um jejum, e vestiram-se de panos de saco, desde o maior até o menor” (Jn 3.5, ARA). Até o rei se cobre de pano de saco.

“Viu Deus o que fizeram, como se converteram do seu mau caminho; e Deus se arrependeu do mal que tinha dito lhes faria e não o fez” (Jn 3.10, ARA). O verbo nacham (Strong H5162) descreve Deus mudando sua ação diante da mudança humana, exatamente como ele havia declarado em Jeremias 18.7-8. Não se trata de Deus errar, mas de sua fidelidade ao próprio caráter compassivo.

Capítulo 4: o problema de Jonas

É no último capítulo que descobrimos o motivo da fuga. Jonas fica irado e ora: “sabia que és Deus clemente, e misericordioso, e tardio em irar-se, e grande em benignidade, e que te arrependes do mal” (Jn 4.2, ARA). Ele cita praticamente a revelação do caráter de Deus a Moisés (Êx 34.6). O profeta conhecia a teologia correta, mas não queria que ela se aplicasse aos seus inimigos.

Deus então ensina Jonas com uma planta (qiqayon, Strong H7021) que cresce, lhe dá sombra e depois seca. O livro termina com uma pergunta de Deus: “e não hei de eu ter compaixão da grande cidade de Nínive, em que há mais de cento e vinte mil pessoas […] e também muitos animais?” (Jn 4.11, ARA). Não sabemos a resposta de Jonas. A pergunta fica para o leitor.

Jonas e Jesus

Jesus se referiu a Jonas duas vezes. Primeiro, como sinal de sua morte e ressurreição: “assim como esteve Jonas três dias e três noites no ventre do grande peixe, assim o Filho do Homem estará três dias e três noites no coração da terra” (Mt 12.40, ARA). Depois, como testemunho contra a incredulidade: os ninivitas se arrependeram com a pregação de Jonas, “E eis aqui está quem é maior do que Jonas” (Mt 12.41, ARA).

A diferença entre os dois é marcante: Jonas fugiu da missão e ressentiu-se da misericórdia; Jesus abraçou a missão e deu a vida pelos pecadores.

Aplicações para hoje

  • Não há fuga da presença de Deus. Mas o Deus de quem Jonas fugiu é o mesmo que o buscou no fundo do mar.
  • Ortodoxia não basta. É possível confessar que Deus é misericordioso e, ainda assim, desejar que ele não seja misericordioso com certas pessoas.
  • A missão de Deus inclui “os de fora”. Marinheiros pagãos e ninivitas violentos foram alcançados. Ninguém está fora do alcance da graça.
  • Segundas chances existem. “Veio a palavra do Senhor, segunda vez” (Jn 3.1).

Conclusão

O livro de Jonas é menos sobre um peixe e mais sobre o coração de Deus. Ele confronta nosso nacionalismo espiritual, nossos ressentimentos e nossa relutância em anunciar a graça a quem consideramos indigno. E termina com uma pergunta que continua ecoando: não deveríamos nós também ter compaixão?

Referências

Passagens bíblicas: Jonas 1–4; 2 Reis 14.25; Naum 1.1; Êxodo 34.6; Jeremias 18.7-8; Mateus 12.39-41. Citações da Almeida Revista e Atualizada (ARA), Sociedade Bíblica do Brasil.

Imagem de capa: Pieter Lastman / Wikimedia Commons (domínio público)

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