Pintura de Bernhard Plockhorst retratando Jesus como o Bom Pastor conduzindo ovelhas
Imagem: Bernhard Plockhorst / Wikimedia Commons (domínio público)

Poucos textos da Bíblia são tão conhecidos quanto o Salmo 23. Ele é recitado em hospitais, velórios, cultos e momentos de oração em família. Justamente por ser tão familiar, corre o risco de ser lido depressa demais. Neste estudo, vamos desacelerar e observar a estrutura do salmo, algumas palavras do hebraico e a maneira como o Novo Testamento aponta Jesus como o Pastor prometido.

Contexto e autoria

O título do salmo o identifica como “Salmo de Davi”. A biografia de Davi dá profundidade à imagem: antes de ser rei, ele cuidava das ovelhas de seu pai. Quando Samuel foi à casa de Jessé, o caçula não estava presente, pois estava “apascentando as ovelhas” (1Sm 16.11, ARA). Mais tarde, diante de Saul, Davi contou como livrou cordeiros das garras de um leão e de um urso (1Sm 17.34-35).

A figura do pastor também era usada no antigo Oriente Próximo para falar de reis. O Código de Hamurábi, por exemplo, apresenta o rei babilônico como “pastor” dos oprimidos, no prólogo, e como pastor “cujo cajado é reto”, no epílogo. Na Bíblia, porém, o grande Pastor de Israel é o próprio Deus: “Dá ouvidos, ó pastor de Israel, tu que conduzes a José como um rebanho” (Sl 80.1, ARA).

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A estrutura do salmo

O Salmo 23 pode ser dividido em duas imagens principais:

  1. O pastor e a ovelha (vv. 1-4): provisão, descanso, direção e proteção.
  2. O anfitrião e o convidado (vv. 5-6): mesa, unção, cálice e morada permanente.

Há também uma mudança significativa de pessoa gramatical. Nos versículos 1 a 3, Davi fala sobre Deus (“Ele me faz repousar”). No versículo 4, no ponto mais escuro do salmo, ele passa a falar com Deus: “porque tu estás comigo” (ARA). No vale, a teologia se torna oração.

Estudo versículo por versículo

Versículo 1 — “nada me faltará”

“O Senhor é o meu pastor; nada me faltará” (Sl 23.1, ARA). O verbo hebraico ligado ao pastor, ra’ah (Strong H7462), significa apascentar, alimentar, cuidar. O nome usado é o nome da aliança, YHWH (traduzido como “Senhor”), o Deus que se revelou a Israel.

A expressão “nada me faltará” ecoa a experiência do deserto. Moisés lembrou ao povo: “estes quarenta anos o Senhor, teu Deus, esteve contigo; coisa nenhuma te faltou” (Dt 2.7, ARA). Não se trata de uma promessa de ter tudo o que se deseja, mas da confiança de que o Pastor supre o que é necessário.

Versículos 2 e 3 — descanso e direção

“Ele me faz repousar em pastos verdejantes. Leva-me para junto das águas de descanso” (ARA). A expressão “águas de descanso” pode ser entendida como “águas de repouso”; a palavra relacionada, menuchah (Strong H4496), indica descanso e tranquilidade. Em uma região semiárida, encontrar pasto e água exigia um pastor que conhecesse o terreno.

“Guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome” (ARA). As “veredas da justiça” são os caminhos certos, as trilhas retas. E a motivação da condução é o nome de Deus — isto é, seu caráter e sua reputação. O Senhor guia seu povo porque é fiel a si mesmo.

Versículo 4 — o vale escuro

“Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum” (ARA). A palavra traduzida como “sombra da morte”, tsalmaveth (Strong H6757), é entendida por muitos estudiosos como “escuridão profunda”. A imagem inclui a morte, mas também qualquer situação de trevas densas: enfermidade, luto, perigo, angústia.

O salmista não diz que evitará o vale, mas que o atravessará acompanhado. “O teu bordão e o teu cajado me consolam” (ARA). Os dois termos hebraicos são diferentes: shebet (Strong H7626), uma vara ou clava, usada para defesa; e mish’enah (Strong H4938), um bastão de apoio. Proteção e sustento caminham juntos.

Versículo 5 — a mesa do anfitrião

“Preparas-me uma mesa na presença dos meus adversários, unges-me a cabeça com óleo; o meu cálice transborda” (ARA). A imagem muda para a hospitalidade. No mundo bíblico, receber alguém à mesa significava acolhimento e proteção. Ungir a cabeça do convidado com óleo era um gesto de honra — Jesus menciona esse costume em Lucas 7.46. O cálice transbordante fala de generosidade que ultrapassa a necessidade.

Versículo 6 — perseguido pela bondade

“Bondade e misericórdia certamente me seguirão todos os dias da minha vida” (ARA). O verbo traduzido por “seguir”, radaph (Strong H7291), normalmente significa perseguir. Davi, que tantas vezes foi perseguido por inimigos, agora descreve a bondade e a misericórdia (hesed) de Deus correndo atrás dele. O salmo termina com a esperança de habitar “na Casa do Senhor para todo o sempre” (ARA).

O Salmo 23 à luz do Novo Testamento

Os profetas anunciaram que Deus mesmo buscaria suas ovelhas (Ez 34.11-12) e levantaria um pastor da linhagem de Davi (Ez 34.23). Jesus se apresenta como o cumprimento dessa esperança: “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas ovelhas” (Jo 10.11, ARA).

O restante do Novo Testamento desenvolve o tema: Jesus é “o grande Pastor das ovelhas” (Hb 13.20, ARA), o “Supremo Pastor” (1Pe 5.4, ARA) e, na visão final do Apocalipse, “o Cordeiro que se encontra no meio do trono os apascentará e os guiará para as fontes da água da vida” (Ap 7.17, ARA). O Pastor que dá a vida é também o Cordeiro que foi sacrificado.

Aplicações para hoje

  • Contentamento: confiar no Pastor liberta da ansiedade de precisar ter tudo sob controle.
  • Descanso: Deus “faz repousar”. Há momentos em que a obediência consiste em parar.
  • Coragem no vale: a presença de Deus não elimina as trevas, mas tira delas o poder de nos dominar.
  • Esperança: a última palavra do salmo é morada eterna, e não o vale.

Conclusão

O Salmo 23 não é uma poesia ingênua para dias tranquilos; é uma confissão de fé escrita por alguém que conheceu leões, inimigos e vales escuros. Sua força está no pronome possessivo do primeiro versículo: o Senhor é o meu pastor. Em Cristo, essa confissão está aberta a todo aquele que ouve a voz do Bom Pastor e o segue.

Referências

Passagens bíblicas: Salmo 23; Salmo 80.1; 1 Samuel 16.11; 17.34-35; Deuteronômio 2.7; Ezequiel 34.11-12,23; Lucas 7.46; João 10.11; Hebreus 13.20; 1 Pedro 5.4; Apocalipse 7.17. Citações da Almeida Revista e Atualizada (ARA), Sociedade Bíblica do Brasil.

Imagem de capa: Bernhard Plockhorst / Wikimedia Commons (domínio público)

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