As bem-aventuranças abrem o Sermão do Monte, o mais longo bloco de ensino de Jesus registrado nos Evangelhos (Mateus 5–7). Em poucas frases, Jesus descreve o tipo de pessoa que vive sob o reinado de Deus. O retrato é surpreendente: os felizes, segundo Jesus, não são os fortes, os autossuficientes ou os bem-sucedidos, mas os humildes, os que choram, os mansos e os perseguidos. Vamos estudar o contexto, a linguagem e o conteúdo dessa passagem.
O contexto do Sermão do Monte
Mateus apresenta a cena assim: “Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte, e, como se assentasse, aproximaram-se os seus discípulos” (Mt 5.1, ARA). Sentar-se era a postura habitual de um mestre judeu ao ensinar. O público imediato são os discípulos, mas as multidões também ouvem, e ao final ficam “maravilhadas da sua doutrina”, porque Jesus ensinava “como quem tem autoridade e não como os escribas” (Mt 7.28-29, ARA).
Lucas registra um conjunto semelhante de bem-aventuranças num discurso proferido numa “planura” (Lc 6.17-23, ARA). Os estudiosos discutem se são dois sermões diferentes ou relatos distintos de um mesmo ensino; de qualquer forma, é natural que Jesus, como mestre itinerante, tenha repetido temas centrais em diversas ocasiões.
O que significa “bem-aventurado”?
A palavra grega é makarios (Strong G3107), que pode ser traduzida por “bem-aventurado”, “feliz” ou “abençoado”. Na tradução grega do Antigo Testamento (a Septuaginta), makarios costuma traduzir o hebraico ‘ashrê (Strong H835), a mesma expressão que abre o Saltério: “Bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos ímpios” (Sl 1.1, ARA).
Não se trata, portanto, de um sentimento passageiro de alegria, mas de uma declaração sobre a condição de alguém diante de Deus. Jesus não diz “procure ser assim para se tornar feliz”; ele declara que essas pessoas já são bem-aventuradas, porque Deus está do lado delas.
A estrutura da passagem
As bem-aventuranças dos versículos 3 a 10 formam um conjunto de oito declarações. A primeira e a oitava terminam com a mesma promessa: “porque deles é o reino dos céus” (vv. 3 e 10). Essa moldura indica que todas as promessas intermediárias — consolo, herança, fartura, misericórdia, visão de Deus, filiação — são aspectos do mesmo reino. Os versículos 11 e 12 ampliam a última bem-aventurança e passam a falar diretamente aos discípulos: “Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem” (ARA).
Mateus usa com frequência a expressão “reino dos céus”, enquanto Marcos e Lucas preferem “reino de Deus”. Muitos estudiosos entendem que Mateus, escrevendo para leitores judeus, seguiu o costume reverente de evitar o uso frequente do nome de Deus. O sentido é o mesmo: o governo de Deus que irrompe na pessoa e na obra de Jesus.
As oito bem-aventuranças
1. Os humildes de espírito (v. 3)
A palavra grega ptōchos (Strong G4434) descreve o pobre que depende de outros para sobreviver. “Pobres de espírito” são os que reconhecem sua falência espiritual diante de Deus. O Antigo Testamento já apontava para eles: “o homem para quem olharei é este: o aflito e abatido de espírito e que treme da minha palavra” (Is 66.2, ARA).
2. Os que choram (v. 4)
O choro aqui inclui o luto pela dor do mundo e pelo pecado. A promessa ecoa Isaías 61, que anuncia alguém ungido pelo Espírito para “consolar todos os que choram” (Is 61.2, ARA) — texto que Jesus aplicou a si mesmo em Lucas 4.
3. Os mansos (v. 5)
“Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra” é praticamente uma citação do Salmo 37.11. A palavra praus (Strong G4239) não indica fraqueza, mas força sob controle, a disposição de não se impor pela violência e de confiar a própria causa a Deus.
4. Os que têm fome e sede de justiça (v. 6)
Fome e sede são desejos intensos e vitais. A justiça, em Mateus, envolve tanto a retidão pessoal diante de Deus quanto a justiça nas relações. A promessa é que tais pessoas “serão fartos” (ARA).
5. Os misericordiosos (v. 7)
Quem recebeu misericórdia aprende a oferecê-la. O tema reaparece no Pai-Nosso (Mt 6.12) e na parábola do servo sem compaixão (Mt 18.21-35).
6. Os limpos de coração (v. 8)
O Salmo 24 pergunta quem subirá ao monte do Senhor e responde: “O que é limpo de mãos e puro de coração” (Sl 24.4, ARA). Pureza de coração é integridade interior, sem duplicidade. A promessa — “verão a Deus” — é a maior esperança bíblica.
7. Os pacificadores (v. 9)
O termo eirēnopoios (Strong G1518) significa literalmente “fazedor de paz”. Não é quem apenas evita conflitos, mas quem trabalha ativamente pela reconciliação. Tiago afirma que “é em paz que se semeia o fruto da justiça, para os que promovem a paz” (Tg 3.18, ARA).
8. Os perseguidos por causa da justiça (v. 10)
A última bem-aventurança é realista: viver os valores do reino gera oposição. Pedro retoma a ideia: “ainda que venhais a sofrer por causa da justiça, bem-aventurados sois” (1Pe 3.14, ARA).
Um retrato, não uma lista de méritos
As bem-aventuranças não são oito tipos diferentes de cristãos, nem degraus para conquistar a salvação. Elas descrevem, em conjunto, o caráter que o Espírito forma em todo discípulo. O ponto de partida é a pobreza de espírito — a admissão de que nada temos a oferecer —, o que exclui qualquer ideia de merecimento. Ao mesmo tempo, o retrato é exigente: logo depois, Jesus chama seus discípulos de “sal da terra” e “luz do mundo” (Mt 5.13-14, ARA). O caráter do reino deve ser visível.
Aplicações para hoje
- Revisar nossos critérios de sucesso. A cultura celebra autoconfiança e visibilidade; Jesus exalta humildade e dependência de Deus.
- Levar a sério o sofrimento. A fé cristã não pede que finjamos alegria; ela promete consolo aos que choram.
- Ser agentes de paz. Em famílias, igrejas e redes sociais polarizadas, os pacificadores são chamados filhos de Deus.
- Perseverar. A oposição por causa de Cristo não é sinal de abandono, mas de identificação com os profetas (Mt 5.12).
Conclusão
As bem-aventuranças mostram o avesso dos valores do mundo e o direito dos valores do reino. Elas encontram sua expressão perfeita no próprio Jesus: manso e humilde, misericordioso, puro, pacificador e perseguido por causa da justiça. Quem o segue é, pouco a pouco, transformado à sua imagem.
Referências
Passagens bíblicas: Mateus 5.1-12; 5.13-14; 7.28-29; Lucas 6.17-23; Salmo 1.1; 24.3-4; 37.11; Isaías 61.1-3; 66.2; Tiago 3.18; 1 Pedro 3.14. Citações da Almeida Revista e Atualizada (ARA), Sociedade Bíblica do Brasil.
- Bíblia Online — Mateus 5 (ARA): https://www.bibliaonline.com.br/ara/mt/5
- Strong’s Greek 3107 (makarios): https://biblehub.com/greek/3107.htm
- Strong’s Hebrew 835 (‘esher/’ashrê): https://biblehub.com/hebrew/835.htm
- Strong’s Greek 4434 (ptōchos): https://biblehub.com/greek/4434.htm
- Strong’s Greek 4239 (praus): https://biblehub.com/greek/4239.htm
- Strong’s Greek 1518 (eirēnopoios): https://biblehub.com/greek/1518.htm
- STOTT, John R. W. A mensagem do Sermão do Monte. Série A Bíblia Fala Hoje. São Paulo: ABU Editora: https://loja.abueditora.com.br/produtos/a-mensagem-do-sermao-do-monte/
- FRANCE, R. T. Matthew: An Introduction and Commentary. Tyndale New Testament Commentaries, v. 1. Leicester: Inter-Varsity Press, 1985: https://www.ivpress.com/matthew-tntc
- Matthew Henry, Commentary on the Whole Bible — Mateus 5 (domínio público): https://www.biblestudytools.com/commentaries/matthew-henry-complete/matthew/5.html
Imagem de capa: Carl Bloch / Wikimedia Commons (domínio público)