Mão de um bebê segurando o dedo de um adulto
Imagem: Matthias Süßen / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

Durante quase quatro décadas, o pai brasileiro com carteira assinada teve direito a apenas cinco dias de licença após o nascimento de um filho. Isso começa a mudar. Em 31 de março de 2026, foi sancionada a Lei 15.371/2026, publicada no Diário Oficial da União em 1º de abril, que amplia a licença-paternidade para até 20 dias e cria o salário-paternidade.

A mudança é gradual e não resolve sozinha a ausência de muitos pais na vida dos filhos. Mas é uma boa oportunidade para as famílias cristãs refletirem sobre o que significa ser pai presente.

O que muda na lei

Segundo a Agência Câmara de Notícias, a lei tem origem no Projeto de Lei 3.935/2008, de autoria do Senado, e regulamenta um direito previsto na Constituição de 1988. A ampliação será feita em etapas:

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  • 10 dias a partir de 2027;
  • 15 dias a partir de 2028;
  • 20 dias a partir de 2029.

Até o início de 2027, continua valendo a regra atual de cinco dias corridos, segundo o G1. A licença vale para nascimento, adoção ou guarda para fins de adoção, sem prejuízo do emprego e do salário.

Outros pontos importantes, de acordo com a Câmara e o G1:

  • Salário-paternidade: passa a ser um benefício previdenciário, nos moldes do salário-maternidade. A empresa paga e depois é compensada pelo INSS.
  • Mais trabalhadores incluídos: microempreendedores individuais (MEIs), trabalhadores domésticos, avulsos e segurados especiais também passam a ter direito.
  • Estabilidade: o pai não pode ser demitido sem justa causa desde o início da licença até um mês após o seu término.
  • Situações especiais: a licença pode começar só após a alta hospitalar da mãe ou do bebê; é ampliada em um terço quando a criança tem deficiência; e o pai tem direito a período equivalente à licença-maternidade em casos como falecimento da mãe ou adoção feita sozinho.
  • Empresa Cidadã: as empresas do programa poderão continuar concedendo 15 dias adicionais, que passarão a ser somados aos 20 dias da nova regra.

Um detalhe chama atenção: segundo o G1, o benefício pode ser negado ou suspenso em casos de violência doméstica ou familiar e de abandono material, quando o pai deixa de prestar assistência financeira à criança. Também pode ser suspenso se o trabalhador não se afastar de fato de suas atividades.

O que os dados dizem sobre a divisão do cuidado

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua 2022, do IBGE, mostrou que as mulheres dedicavam, em média, 21,3 horas por semana a afazeres domésticos e cuidado de pessoas, contra 11,7 horas dos homens. A diferença de 9,6 horas era um pouco menor que a de 2019 (10,6 horas).

Segundo a Agência Brasil, 91,3% das mulheres realizaram algum afazer doméstico em 2022, contra 79,2% dos homens. A analista do IBGE Alessandra Brito observou que não dava para afirmar que a divisão tinha ficado mais equilibrada, porque a taxa entre os homens ficou praticamente estável.

O relator da lei na Câmara, deputado Pedro Campos (PSB-PE), resumiu a intenção da mudança: “Por muito tempo, o cuidado com os filhos foi tratado como responsabilidade quase exclusiva das mulheres. Agora, o Brasil reconhece que o cuidado deve ser compartilhado.”

O pai na Bíblia: presença, cuidado e ensino

A Escritura apresenta o próprio Deus como Pai, e é desse modelo que nasce a paternidade cristã. “Como um pai se compadece de seus filhos, assim o Senhor se compadece dos que o temem” (Salmo 103.13).

O pai bíblico não é uma figura distante que apenas provê e corrige. Em Deuteronômio 6.7, os pais devem ensinar os filhos no cotidiano, “assentado em tua casa, e andando pelo caminho”. Paulo lembra aos pais: “não irriteis os vossos filhos, para que não fiquem desanimados” (Colossenses 3.21). E descreve seu cuidado com os tessalonicenses “como pai a seus filhos”, exortando, consolando e admoestando (1 Tessalonicenses 2.11-12).

Na parábola do filho pródigo, o pai vê o filho de longe, corre, abraça e beija (Lucas 15.20). É uma imagem de paternidade afetuosa, que toma a iniciativa.

O profeta Malaquias termina o Antigo Testamento com a promessa de que Deus “converterá o coração dos pais aos filhos e o coração dos filhos a seus pais” (Malaquias 4.6). A restauração da paternidade faz parte do plano de Deus para as famílias.

Como aproveitar bem a licença e além dela

  1. Planeje com antecedência. Converse com a empresa e com a esposa sobre as datas, especialmente se houver possibilidade de adiar o início por internação.
  2. Assuma tarefas de verdade. Trocar fraldas, dar banho, fazer comida e cuidar da casa permite que a mãe descanse e se recupere.
  3. Cuide da esposa. O pós-parto é um período de grande exigência física e emocional. Esteja atento a sinais de esgotamento e busque ajuda quando necessário.
  4. Crie vínculo cedo. Colo, voz e presença nas primeiras semanas ajudam a construir uma relação que continuará pela vida.
  5. Estenda a presença depois da licença. Horários fixos para brincar, ler, orar e conversar com os filhos valem mais que momentos esporádicos.

E a igreja?

Congregações podem apoiar pais de primeira viagem com grupos de homens, mentorias entre pais mais experientes e mais novos, e ensino sobre paternidade que vá além do papel de provedor. Também podem acolher e orientar homens que não tiveram um pai presente, para que rompam esse ciclo com seus próprios filhos.

Conclusão

A nova lei dá ao pai brasileiro mais tempo com o filho recém-nascido. O que ele fará com esse tempo, e com todos os anos seguintes, depende de algo que nenhuma lei garante: um coração voltado para os filhos, como o de Deus Pai.

Fontes

Imagem de capa: Matthias Süßen / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

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