O Brasil encerrou 2025 com 365.822 pessoas em situação de rua inscritas no Cadastro Único (CadÚnico), segundo levantamento do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, da Universidade Federal de Minas Gerais (OBPopRua/UFMG), divulgado em janeiro de 2026. Em dezembro de 2024, eram 327.925. O número é o maior da série e coloca uma pergunta direta para as igrejas: como ajudar de forma que a ajuda realmente transforme vidas, e não apenas alivie a consciência de quem doa?

O tamanho do desafio em números

Os dados do OBPopRua vêm do CadÚnico, alimentado pelas prefeituras e enviado ao Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS). Isso significa que o número se refere a quem foi cadastrado; pessoas que nunca passaram por um serviço público podem não estar na conta.

  • Sudeste concentra a maior parte: 222.311 pessoas, ou 61% do total. O Nordeste vem em seguida, com 54.801.
  • Estados: São Paulo lidera, com 150.958 pessoas; depois vêm Rio de Janeiro (33.656) e Minas Gerais (33.139). O Amapá tem o menor número (292).
  • Capital paulista: mais de 101 mil pessoas viviam nas ruas da cidade de São Paulo em 2025, cerca de 27% do total nacional.

O crescimento vem de longe. Em março de 2025, quando o CadÚnico registrava 335.151 pessoas nessa condição, o número já era 14,6 vezes maior que o de dezembro de 2013, quando havia cerca de 22,9 mil pessoas cadastradas. Parte desse aumento se explica pela ampliação do próprio cadastramento, mas o crescimento contínuo desde 2022 é apontado pelos pesquisadores como sinal de agravamento real.

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Quem são as pessoas que vivem nas ruas

O perfil mais recente divulgado pelo Observatório, com dados de março de 2025, ajuda a desfazer estereótipos:

  • 84% são homens;
  • 88% têm entre 18 e 59 anos, ou seja, estão em idade de trabalhar; 9% são idosos e 3% são crianças e adolescentes;
  • a maioria é de pessoas negras;
  • 81% sobrevivem com até R$ 109 por mês;
  • 52% não completaram o ensino fundamental ou são analfabetos.

Um relatório do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), publicado em setembro de 2023 com dados de 2022, mostrou que a população em situação de rua estava presente em 64% dos municípios brasileiros, ou seja, não é um problema só das capitais. O mesmo documento registrou que 88% das notificações de violência contra essa população em 2022 envolviam violência física.

Em reportagem da Agência Brasil sobre os dados de 2025, Robson César Correia de Mendonça, do Movimento Estadual da População em Situação de Rua de São Paulo, resumiu o que muitos esquecem: é preciso deixar de ver essas pessoas como “um ser de outro planeta” e enxergá-las como cidadãos, muitas vezes desempregados.

O que o poder público já faz e o que a lei determina

Conhecer a rede pública é o primeiro passo para uma igreja ajudar sem duplicar esforços nem agir às cegas. Alguns marcos verificados:

  • Política Nacional para a População em Situação de Rua (Decreto 7.053/2009). Em julho de 2023, na ADPF 976, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, determinou que estados, Distrito Federal e municípios cumpram o decreto. A decisão proibiu o recolhimento forçado de pertences, a remoção e o transporte compulsório dessas pessoas e o uso de “arquitetura hostil”, e exigiu padrões mínimos de higiene e segurança nos abrigos.
  • Plano Ruas Visíveis, lançado pelo governo federal em 11 de dezembro de 2023, em resposta à decisão do STF, com previsão de R$ 982 milhões divididos em sete eixos. Os maiores são assistência social e segurança alimentar (R$ 575,7 milhões) e saúde (R$ 304,1 milhões), com ampliação dos Consultórios na Rua.
  • Centros Pop: o relatório do MDHC contou 246 unidades entre 2017 e 2022, com 578 mil atendimentos registrados. São os centros de referência especializados para essa população, ligados à assistência social dos municípios.
  • Programa Cozinha Solidária (Lei 14.628/2023): prevê alimentação gratuita, preferencialmente para pessoas em vulnerabilidade, “incluída a população em situação de rua”, e permite parcerias com entidades da sociedade civil.

Para as igrejas, há um detalhe importante: a Lei 13.019/2014, o chamado Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil, inclui entre essas organizações “as organizações religiosas que se dediquem a atividades ou a projetos de interesse público e de cunho social distintas das destinadas a fins exclusivamente religiosos”. Ou seja, uma igreja pode firmar parcerias formais com o poder público, desde que o trabalho social seja separado da atividade religiosa e preste contas como qualquer outra organização.

Formas responsáveis de ajudar

A parábola do bom samaritano (Lucas 10.25-37) mostra um cuidado que vai além do gesto rápido: ele se aproxima, trata as feridas, leva a uma hospedaria e volta para acompanhar. Na prática, isso se traduz em algumas orientações:

  • Comece pela escuta. Pergunte o nome, a história, a necessidade. Com renda média tão baixa e escolaridade limitada, as necessidades variam muito: documento, emprego, tratamento de saúde, reencontro com a família, moradia.
  • Conecte com a rede pública. Informe-se sobre o Centro Pop, o CRAS/CREAS e o Consultório na Rua da sua cidade. Ajudar alguém a entrar no CadÚnico, por exemplo, abre acesso a programas sociais que nenhuma igreja sozinha consegue oferecer.
  • Prefira a continuidade ao evento. Uma sopa semanal regular, com as mesmas pessoas voluntárias, cria vínculo e confiança. Ações pontuais têm valor, mas raramente mudam trajetórias.
  • Preserve a dignidade. Evite fotografar rostos para redes sociais, não condicione a ajuda à participação em cultos e respeite as escolhas de cada pessoa.
  • Cuide da segurança alimentar e sanitária. Alimentos devem ser preparados e transportados com higiene; se a igreja recebe doações de mercados ou restaurantes, informe-se sobre as regras da doação de excedentes.
  • Trabalhe em rede. Converse com outras igrejas e organizações do bairro para não concentrar doações no mesmo ponto enquanto outras áreas ficam sem atendimento.
  • Formalize quando crescer. Se o trabalho ganhar escala, considere constituir uma organização com CNPJ, estatuto e prestação de contas, o que permite parcerias pelo Marco Regulatório.

Antes de doar para um projeto

Muitas igrejas preferem apoiar um ministério que já atua nas ruas. É um caminho legítimo, mas exige os mesmos cuidados de qualquer apoio missionário: saber quem são os responsáveis, como o dinheiro é usado, quais resultados são acompanhados e se há transparência na prestação de contas. Reunimos esses critérios no guia Antes de apoiar um projeto missionário: o que verificar.

O desafio é grande, mas não é abstrato. Por trás de cada um dos 365.822 registros há uma pessoa com nome, história e dignidade. A resposta da igreja pode começar com um prato de comida, mas precisa chegar à pergunta que o próprio Jesus fez ao cego de Jericó: “Que queres que eu te faça?” (Marcos 10.51).

Fontes

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