Grandes tendas brancas de acolhimento da Operação Acolhida, em Roraima, com pessoas ao longe
Imagem: Ministério da Defesa / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Durante muito tempo, “fazer missões” foi sinônimo de atravessar fronteiras. Hoje, muitas pessoas de outras nações atravessam a fronteira na direção contrária e chegam às cidades brasileiras. Venezuelanos, cubanos, angolanos, afegãos e sírios estão entre os que pedem proteção no Brasil. Para as igrejas, isso é ao mesmo tempo um desafio social e uma oportunidade missionária que exige preparo e responsabilidade.

O retrato do refúgio no Brasil

O relatório Refúgio em Números 2025, elaborado pelo Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra) para o Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), foi divulgado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública em 13 de junho de 2025. Os principais dados de 2024:

  • 68.159 solicitações de refúgio, alta de 16,3% em relação a 2023.
  • Pedidos vindos de 130 países. Os venezuelanos lideraram, com 27.150 pedidos (39,8%), seguidos por cubanos (22.288, ou 32,7%) e angolanos (3.421).
  • O Conare reconheceu 13.632 pessoas como refugiadas. Mais de 93% eram venezuelanas; também houve reconhecimentos de pessoas do Afeganistão, da Colômbia e da Síria.
  • 41,8% dos reconhecidos eram crianças, adolescentes e jovens de até 18 anos, segundo a Agência Brasil.

Somando os pedidos anteriores, o Brasil acumulava 477.964 solicitações de refúgio protocoladas até o fim de 2024, segundo o relatório.

Publicidade

A Operação Acolhida e a interiorização

A principal resposta à chegada de venezuelanos pelo Norte do país é a Operação Acolhida, criada em 2018. Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), em nota de 24 de fevereiro de 2026:

  • Desde abril de 2018, mais de 157 mil pessoas foram interiorizadas, ou seja, levadas voluntariamente de Roraima para outras cidades do país.
  • Até janeiro de 2026, 1.121 municípios tinham recebido venezuelanos interiorizados.
  • Os estados que mais receberam foram Santa Catarina (mais de 34 mil), Paraná (mais de 30 mil) e Rio Grande do Sul (cerca de 24 mil), com 56% do total.
  • Entre as cidades, destacam-se Curitiba (mais de 9 mil), São Paulo (mais de 6,3 mil), Chapecó (6,2 mil), Manaus (mais de 5,5 mil) e Dourados (mais de 4,6 mil).
  • Pesquisas do ACNUR indicam que 77% das famílias interiorizadas conseguiram emprego poucas semanas após chegar ao destino.
  • Mais de 100 organizações integram a operação.

O ACNUR também informa que mais de 700 mil venezuelanos buscam proteção no Brasil.

O contexto mundial

No mundo, a situação é ainda maior. Segundo o relatório Global Trends do ACNUR, no fim de 2025 havia 41,6 milhões de refugiados, além de 9 milhões de solicitantes de refúgio aguardando decisão e 68,7 milhões de deslocados dentro do próprio país por conflitos ou violência. A agência calcula que uma em cada 70 pessoas no mundo está deslocada à força. O Sudão continua sendo a maior crise de deslocamento interno, com 9,1 milhões de pessoas.

O estrangeiro na Bíblia

A Escritura dá lugar central ao cuidado com o estrangeiro. A lei de Moisés ordenava: “Como o natural, será entre vós o estrangeiro que peregrina convosco; amá-lo-eis como a vós mesmos, pois estrangeiros fostes na terra do Egito” (Levítico 19.34). Deuteronômio descreve o próprio Deus como aquele que “ama o estrangeiro, dando-lhe pão e vestes” (Deuteronômio 10.18).

Jesus se identificou com o forasteiro: “era forasteiro, e me hospedastes” (Mateus 25.35). E o Novo Testamento exorta: “Não negligencieis a hospitalidade, pois alguns, praticando-a, sem o saber acolheram anjos” (Hebreus 13.2).

A própria história da missão cristã está ligada ao deslocamento. Depois da perseguição em Jerusalém, “os que foram dispersos iam por toda parte pregando a palavra” (Atos 8.4). Quem chega traz histórias, culturas e crenças diferentes. Para irmãos na fé, a igreja pode ser uma nova família; para todos, pode ser um lugar de acolhimento.

Como a igreja pode acolher com responsabilidade

  1. Acolher sem condicionar. Ajuda humanitária não pode depender de conversão ou de frequência aos cultos. O amor cristão é oferecido gratuitamente, e o testemunho do evangelho acontece com liberdade e respeito.
  2. Apoiar a integração. Aulas de português, orientação para documentos, currículo e acesso a serviços públicos estão entre as maiores necessidades de quem chega.
  3. Trabalhar em rede. A Operação Acolhida e organizações especializadas conhecem os procedimentos legais e de proteção. Parcerias evitam improvisos que colocam pessoas em risco.
  4. Oferecer comunidade. Muitos refugiados chegam sozinhos, longe da família. Convites para refeições, grupos pequenos e celebrações ajudam a construir vínculos.
  5. Combater a xenofobia. Discursos que tratam imigrantes como ameaça contradizem a ética bíblica. A igreja pode ser voz de verdade e de paz.
  6. Aprender com os irmãos que chegam. Imigrantes cristãos de outros países trazem experiências de fé, muitas vezes forjadas em crises, que podem enriquecer as igrejas brasileiras.

A missão continua sendo “ide”, mas também passou a ser “recebei”. Para muitas igrejas, as nações já estão no bairro.

Fontes

Imagem de capa: Ministério da Defesa / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Você também pode gostar

O que observar antes de apoiar um projeto missionário

Critérios para conhecer responsáveis, objetivos, custos e resultados de uma iniciativa.

Brasil tem 365,8 mil pessoas em situação de rua: como as igrejas podem ajudar bem

Brasil fechou 2025 com 365.822 pessoas em situação de rua no CadÚnico, recorde da série. Veja o perfil, o que diz a lei e como as igrejas podem ajudar bem.