Durante muito tempo, “fazer missões” foi sinônimo de atravessar fronteiras. Hoje, muitas pessoas de outras nações atravessam a fronteira na direção contrária e chegam às cidades brasileiras. Venezuelanos, cubanos, angolanos, afegãos e sírios estão entre os que pedem proteção no Brasil. Para as igrejas, isso é ao mesmo tempo um desafio social e uma oportunidade missionária que exige preparo e responsabilidade.
O retrato do refúgio no Brasil
O relatório Refúgio em Números 2025, elaborado pelo Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra) para o Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), foi divulgado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública em 13 de junho de 2025. Os principais dados de 2024:
- 68.159 solicitações de refúgio, alta de 16,3% em relação a 2023.
- Pedidos vindos de 130 países. Os venezuelanos lideraram, com 27.150 pedidos (39,8%), seguidos por cubanos (22.288, ou 32,7%) e angolanos (3.421).
- O Conare reconheceu 13.632 pessoas como refugiadas. Mais de 93% eram venezuelanas; também houve reconhecimentos de pessoas do Afeganistão, da Colômbia e da Síria.
- 41,8% dos reconhecidos eram crianças, adolescentes e jovens de até 18 anos, segundo a Agência Brasil.
Somando os pedidos anteriores, o Brasil acumulava 477.964 solicitações de refúgio protocoladas até o fim de 2024, segundo o relatório.
A Operação Acolhida e a interiorização
A principal resposta à chegada de venezuelanos pelo Norte do país é a Operação Acolhida, criada em 2018. Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), em nota de 24 de fevereiro de 2026:
- Desde abril de 2018, mais de 157 mil pessoas foram interiorizadas, ou seja, levadas voluntariamente de Roraima para outras cidades do país.
- Até janeiro de 2026, 1.121 municípios tinham recebido venezuelanos interiorizados.
- Os estados que mais receberam foram Santa Catarina (mais de 34 mil), Paraná (mais de 30 mil) e Rio Grande do Sul (cerca de 24 mil), com 56% do total.
- Entre as cidades, destacam-se Curitiba (mais de 9 mil), São Paulo (mais de 6,3 mil), Chapecó (6,2 mil), Manaus (mais de 5,5 mil) e Dourados (mais de 4,6 mil).
- Pesquisas do ACNUR indicam que 77% das famílias interiorizadas conseguiram emprego poucas semanas após chegar ao destino.
- Mais de 100 organizações integram a operação.
O ACNUR também informa que mais de 700 mil venezuelanos buscam proteção no Brasil.
O contexto mundial
No mundo, a situação é ainda maior. Segundo o relatório Global Trends do ACNUR, no fim de 2025 havia 41,6 milhões de refugiados, além de 9 milhões de solicitantes de refúgio aguardando decisão e 68,7 milhões de deslocados dentro do próprio país por conflitos ou violência. A agência calcula que uma em cada 70 pessoas no mundo está deslocada à força. O Sudão continua sendo a maior crise de deslocamento interno, com 9,1 milhões de pessoas.
O estrangeiro na Bíblia
A Escritura dá lugar central ao cuidado com o estrangeiro. A lei de Moisés ordenava: “Como o natural, será entre vós o estrangeiro que peregrina convosco; amá-lo-eis como a vós mesmos, pois estrangeiros fostes na terra do Egito” (Levítico 19.34). Deuteronômio descreve o próprio Deus como aquele que “ama o estrangeiro, dando-lhe pão e vestes” (Deuteronômio 10.18).
Jesus se identificou com o forasteiro: “era forasteiro, e me hospedastes” (Mateus 25.35). E o Novo Testamento exorta: “Não negligencieis a hospitalidade, pois alguns, praticando-a, sem o saber acolheram anjos” (Hebreus 13.2).
A própria história da missão cristã está ligada ao deslocamento. Depois da perseguição em Jerusalém, “os que foram dispersos iam por toda parte pregando a palavra” (Atos 8.4). Quem chega traz histórias, culturas e crenças diferentes. Para irmãos na fé, a igreja pode ser uma nova família; para todos, pode ser um lugar de acolhimento.
Como a igreja pode acolher com responsabilidade
- Acolher sem condicionar. Ajuda humanitária não pode depender de conversão ou de frequência aos cultos. O amor cristão é oferecido gratuitamente, e o testemunho do evangelho acontece com liberdade e respeito.
- Apoiar a integração. Aulas de português, orientação para documentos, currículo e acesso a serviços públicos estão entre as maiores necessidades de quem chega.
- Trabalhar em rede. A Operação Acolhida e organizações especializadas conhecem os procedimentos legais e de proteção. Parcerias evitam improvisos que colocam pessoas em risco.
- Oferecer comunidade. Muitos refugiados chegam sozinhos, longe da família. Convites para refeições, grupos pequenos e celebrações ajudam a construir vínculos.
- Combater a xenofobia. Discursos que tratam imigrantes como ameaça contradizem a ética bíblica. A igreja pode ser voz de verdade e de paz.
- Aprender com os irmãos que chegam. Imigrantes cristãos de outros países trazem experiências de fé, muitas vezes forjadas em crises, que podem enriquecer as igrejas brasileiras.
A missão continua sendo “ide”, mas também passou a ser “recebei”. Para muitas igrejas, as nações já estão no bairro.
Fontes
- Ministério da Justiça e Segurança Pública / OBMigra, Refúgio em Números 2025: https://www.gov.br/mj/pt-br/assuntos/seus-direitos/migracoes/portal-de-imigracao-laboral/obmigra-1/relatorios-obmigra/refugio-em-numeros/2025/obmigra-refugio-em-numeros-2025
- Agência Brasil, “Brasil registra mais de 68 mil pedidos de refúgio em 2024” (13 jun. 2025): https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2025-06/brasil-registra-mais-de-68-mil-pedidos-de-refugio-em-2024
- ACNUR Brasil, “Oito anos da Operação Acolhida em oito perguntas” (24 fev. 2026): https://www.acnur.org/br/noticias/notas-informativas/oito-anos-da-operacao-acolhida-no-brasil
- UNHCR, Global Trends: https://www.unhcr.org/global-trends
- Bíblia Sagrada, Almeida Revista e Atualizada (ARA): Levítico 19.34; Deuteronômio 10.18; Mateus 25.35; Hebreus 13.2; Atos 8.4.
Imagem de capa: Ministério da Defesa / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)