Entre as mudanças trazidas pela Reforma Protestante está a revalorização do casamento e da vida familiar como chamado honrado por Deus, e não como um estado espiritual inferior.
Na época da Reforma, era comum a ideia de que a vida celibatária, de monges, freiras e sacerdotes, era espiritualmente superior ao casamento. Os reformadores questionaram essa visão. Com base nas Escrituras, eles defenderam que o casamento é uma instituição criada por Deus e uma vocação honrada, na qual homens e mulheres podem servir a Deus plenamente.
O casamento no plano de Deus
Os reformadores se apoiaram no relato da criação. Deus disse que não era bom que o homem estivesse só e criou a mulher como auxiliadora adequada (Gênesis 2:18). Abençoou o primeiro casal e lhes deu a missão de cuidar da criação (Gênesis 1:28). O casamento, portanto, faz parte do plano original de Deus.
Jesus confirmou esse ensino ao citar Gênesis: o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne (Mateus 19:4-6).
O casamento é honroso
Hebreus afirma:
“O casamento deve ser honrado por todos.” (Hebreus 13:4, NVI)
Paulo alertou contra ensinos que proibiam o casamento (1 Timóteo 4:1-3). Ele também reconheceu o celibato como um dom para alguns (1 Coríntios 7:7), mas nunca o apresentou como obrigatório ou superior em dignidade.
Os reformadores entenderam que tanto o casamento quanto o celibato podem ser vividos para a glória de Deus, de acordo com o chamado de cada um.
Lutero e Katharina von Bora
Martinho Lutero, que havia sido monge, casou-se em 1525 com Katharina von Bora, que havia deixado a vida de freira. O casamento deles se tornou um exemplo conhecido de vida familiar na Reforma. O casal teve filhos e manteve uma casa movimentada, que recebia estudantes e visitantes.
Katharina ficou conhecida por administrar a casa e os bens da família com dedicação. Lutero, em suas cartas, demonstrava afeto e consideração por ela. A vida familiar deles ajudou a mostrar que o casamento podia ser um espaço de fé, trabalho e serviço.
A família como lugar de vocação
Os reformadores ensinaram que as tarefas da vida familiar, como cuidar dos filhos, trabalhar para o sustento da casa e servir ao cônjuge, são formas de servir a Deus. Atividades consideradas simples passaram a ser vistas como parte da vocação cristã.
Essa visão valorizou a vida cotidiana. Trocar fraldas, preparar refeições, educar os filhos e trabalhar pelo sustento podem ser feitos para a glória de Deus (1 Coríntios 10:31).
A família como espaço de ensino da fé
A Reforma também valorizou o papel dos pais na educação espiritual dos filhos. Lutero escreveu o Catecismo Menor para ajudar os chefes de família a ensinarem as bases da fé em casa. A família passou a ser vista como uma pequena igreja, onde se lia a Bíblia, se orava e se cantava.
Essa ênfase ecoa Deuteronômio 6:6-7, que orienta os pais a ensinarem as palavras de Deus aos filhos em todos os momentos.
Lições para os casais de hoje
O casamento é uma vocação
Viver bem o casamento é uma forma de servir a Deus. Não é algo secundário na vida cristã.
A vida cotidiana tem valor
As tarefas diárias da casa e da família não são insignificantes. Feitas com amor, glorificam a Deus.
O lar é lugar de fé
Ler a Bíblia, orar e ensinar os filhos em casa continua sendo um chamado para as famílias cristãs.
A hospitalidade abençoa
A casa de Lutero e Katharina era aberta. Casais cristãos podem usar o lar para acolher e servir.
Honrar o casamento
Num tempo em que o casamento é muitas vezes desvalorizado, os cristãos são chamados a honrá-lo, com fidelidade e amor.
Um convite para esta semana
Neste 31 de outubro, conversem como casal sobre o que significa viver o casamento como uma vocação diante de Deus. Escolham uma prática para fortalecer a fé no lar, como ler a Bíblia juntos ou orar com os filhos.
A Reforma nos lembra que o casamento não é um caminho de segunda categoria, mas um chamado honrado no qual Deus é glorificado no dia a dia.
Citações bíblicas: Nova Versão Internacional (NVI).
Imagem de capa: Falk2 / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)