Crianças brincando ao ar livre

Neste Dia das Crianças, o presente mais valioso talvez não caiba numa caixa. Os números mais recentes da pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025, do Cetic.br, mostram que 92% dos brasileiros de 9 a 17 anos usam a internet — cerca de 24,5 milhões de pessoas — e que 74% acessam a rede várias vezes ao dia pelo celular. O Estatuto da Criança e do Adolescente, por sua vez, inclui entre os direitos de toda criança o de “brincar, praticar esportes e divertir-se”. A data é uma boa oportunidade para famílias e igrejas oferecerem às crianças algo que as telas não substituem: tempo, presença e brincadeira de verdade.

O que a pesquisa mais recente mostra

A TIC Kids Online Brasil é realizada pelo Cetic.br, do Comitê Gestor da Internet no Brasil. A edição de 2025, divulgada em 22 de outubro de 2025, ouviu 2.370 crianças e adolescentes de 9 a 17 anos, além de seus pais ou responsáveis, entre março e setembro daquele ano. Alguns dados ajudam a entender a rotina digital das crianças brasileiras:

  • Celular em primeiro lugar: 96% dos usuários acessam a internet pelo celular.
  • Uso diário desde cedo: segundo o resumo executivo, 82% das crianças de 9 a 10 anos usam o celular todos os dias; entre os de 15 a 17 anos, o índice chega a 98%.
  • Primeiro acesso precoce: 28% disseram ter entrado na internet pela primeira vez até os 6 anos.
  • Redes sociais antes da hora: 64% dos usuários de 9 a 10 anos e 79% dos de 11 a 12 anos têm perfil em alguma rede social.
  • Vídeos e jogos: 80% assistem a vídeos de influenciadores e 52% a vídeos de pessoas jogando videogame.

Os riscos que chegam junto

A pesquisa também registra exposições que preocupam. Entre os usuários de 11 a 17 anos, 53% disseram ter visto vídeos de jogos de apostas (63% na faixa de 15 a 17 anos), e 21% fizeram compras em jogos on-line. Segundo o resumo executivo, 8% dos usuários de 9 a 17 anos relataram contato com imagens ou vídeos de conteúdo sexual na internet.

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Há ainda um fenômeno novo: 65% das crianças e adolescentes usuários de internet já usam inteligência artificial generativa, principalmente para pesquisas escolares (59%). Mas 10% disseram usá-la para conversar sobre questões pessoais ou emocionais — um sinal de que, para parte deles, falta alguém de carne e osso para ouvir.

Se a criança sofrer ou presenciar qualquer forma de violência, dentro ou fora da internet, a denúncia pode ser feita pelo Disque 100, gratuito e anônimo.

O que os pediatras recomendam

O manual #Menos Telas #Mais Saúde, atualizado pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) em 2024, recomenda no máximo 1 hora de tela por dia para crianças de 2 a 5 anos e de 1 a 2 horas para as de 6 a 10 anos, sempre com supervisão; para menores de 2 anos, nenhuma exposição sem necessidade. Nada de telas nas refeições, e desconexão de 1 a 2 horas antes de dormir.

Mas o documento não fica só nas restrições. A SBP orienta “oferecer alternativas para brincadeiras e atividades esportivas, exercícios ao ar livre ou em contato direto com a Natureza”, define o brincar como “um direito universal e atemporal de todas as crianças e adolescentes” e resume: “Conectar-se e dialogar com seus filhos, crianças ou adolescentes, sempre e fora das telas é o melhor caminho para se evitar a dependência tecnológica”.

Ideias práticas para as famílias

Reduzir telas funciona melhor quando há algo interessante no lugar. Algumas sugestões simples, que cabem em qualquer orçamento:

  • Um dia de “celular na gaveta”: no feriado, os adultos também guardam o aparelho. O exemplo pesa mais que a regra.
  • Brincadeiras dos pais e avós: pião, amarelinha, pega-pega, queimada, pular corda, esconde-esconde. Peça aos avós que ensinem as brincadeiras da infância deles.
  • Passeio ao ar livre: praça, parque, praia, trilha curta ou um piquenique no quintal.
  • Cozinhar juntos: um bolo ou uma pizza caseira em que cada filho tenha uma tarefa.
  • Caixa de jogos da família: quebra-cabeças, jogos de tabuleiro e cartas para as noites da semana.
  • Construir e criar: cabana de lençóis, brinquedos de sucata, desenho, massinha, horta em vasos.
  • Leitura em voz alta: histórias antes de dormir, no lugar do celular na cama.
  • Combinados visíveis: um cartaz na geladeira com os horários de tela e os lugares da casa onde o celular não entra.

Para transformar essas mudanças em acordo, e não em imposição, vale ler como conduzir a conversa em família sobre o uso de telas.

Ideias para igrejas

As comunidades de fé têm espaço, voluntários e uma rede de famílias — uma combinação rara. No Dia das Crianças e ao longo do ano, é possível:

  • Promover uma tarde de brincadeiras tradicionais no pátio ou numa praça próxima, com gincanas, cantinho de jogos de tabuleiro e oficinas de pipa ou brinquedos de sucata.
  • Envolver as gerações: convidar os idosos da igreja para ensinar brincadeiras antigas e contar histórias — dois grupos que costumam ficar isolados se encontram.
  • Fazer um culto ou encontro “sem telas” para as famílias, com momento de louvor, histórias bíblicas encenadas pelas próprias crianças e lanche partilhado.
  • Oferecer um encontro para pais sobre educação digital, com base nas recomendações da SBP e nas ferramentas de supervisão que as plataformas passaram a ser obrigadas a oferecer.
  • Cuidar para que o ministério infantil não dependa de telas para prender a atenção: o recurso pode ajudar, mas não deve substituir a interação.
  • Lembrar as crianças que não têm quem brinque com elas: abrir as atividades à vizinhança é uma forma concreta de acolhimento.

Um olhar cristão

Jesus acolheu as crianças quando outros queriam afastá-las (Marcos 10.14) e as colocou como exemplo do Reino. Zacarias 8.5 descreve a cidade restaurada com ruas “cheias de meninos e meninas, que nelas brincarão” — o brincar aparece como sinal de paz e de bênção. Oferecer às crianças tempo livre das telas não é nostalgia nem moralismo: é devolver a elas uma infância com rosto, voz e presença. Neste 12 de outubro, a melhor lembrança pode ser uma tarde inteira com quem elas mais amam.

Fontes

Imagem de capa: Unsplash (Unsplash License)

Método: composição editorial 1200×630 com retrato centrado sobre fundo desfocado da mesma fotografia.

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