Peças coloridas de quebra-cabeça espalhadas, em vista de cima
Imagem: Hans-Peter Gauster / Wikimedia Commons (CC0 1.0)

Pela primeira vez, o Brasil tem um número oficial de pessoas diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). O Censo Demográfico 2022, com resultados divulgados pelo IBGE em 23 de maio de 2025, identificou 2,4 milhões de pessoas com diagnóstico de autismo feito por algum profissional de saúde, o equivalente a 1,2% da população.

Por trás de cada número há uma família que aprende, muitas vezes sozinha, a lidar com terapias, escola, preconceito e cansaço. Os dados ajudam a entender essa realidade e a pensar como as igrejas podem ser lugares de acolhimento.

O que o Censo mostrou

A pergunta sobre autismo entrou no questionário da amostra do Censo por causa da Lei nº 13.861/2019, que tornou obrigatória a coleta de informações sobre TEA nos censos. Os principais resultados:

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  • Sexo: a prevalência foi maior entre homens (1,5%) do que entre mulheres (0,9%). Eram cerca de 1,4 milhão de homens e 1,0 milhão de mulheres.
  • Idade: o diagnóstico é mais frequente entre os mais jovens. O IBGE registrou 2,1% no grupo de 0 a 4 anos, 2,6% entre 5 e 9 anos, 1,9% entre 10 e 14 anos e 1,3% entre 15 e 19 anos. Nos grupos mais velhos, os percentuais ficaram entre 0,8% e 1,0%.
  • Meninos de 5 a 9 anos: 3,8% deles tinham diagnóstico, cerca de 264,6 mil crianças. Entre as meninas da mesma idade, o índice foi de 1,3%.
  • Estados: o percentual variou entre 1% e 1,6%, com os maiores índices no Acre e no Ceará (1,6%), segundo o Estadão.

O jornal também registrou que a prevalência foi maior entre pessoas brancas (1,3%), o que, segundo a reportagem, pode refletir desigualdade de acesso ao diagnóstico. Vale lembrar que os dados se referem a pessoas que declararam ter recebido diagnóstico de um profissional de saúde, e não a uma avaliação clínica de toda a população. Por isso, diferenças entre grupos podem refletir também o acesso ao diagnóstico.

Autismo e escola

O Censo contou 760,8 mil estudantes de 6 anos ou mais com diagnóstico de autismo, 1,7% de todos os estudantes do país. A maioria (66,8%, ou 508 mil) estava no ensino fundamental regular.

A taxa de escolarização geral dos autistas (36,9%) é maior do que a da população total (24,3%), mas isso acontece porque os autistas diagnosticados se concentram nas idades escolares. Quando se compara faixa por faixa, a situação se inverte, segundo a Agência Brasil:

  • de 6 a 14 anos, 94,4% dos autistas frequentavam a escola, contra 98,3% da população geral;
  • de 15 a 17 anos, 77,3%, contra 85,3%.

Entre adultos com 25 anos ou mais, 46,1% das pessoas com autismo não tinham instrução ou não haviam completado o ensino fundamental, contra 35,2% da população total. Só 15,7% tinham ensino superior completo, contra 18,4%.

Especialistas ouvidos pelo Estadão avaliam que a inclusão escolar ainda não se efetivou como deveria: muitos estudantes entram na escola, mas não continuam.

O que diz a lei

A Lei nº 12.764/2012, que instituiu a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista, determina que “a pessoa com transtorno do espectro autista é considerada pessoa com deficiência, para todos os efeitos legais” (art. 1º, § 2º). Isso garante às pessoas autistas os direitos previstos na legislação sobre deficiência, como acessibilidade e atendimento prioritário.

Um olhar bíblico sobre a diferença

A Escritura afirma o valor de cada pessoa desde a formação: “tu me teceste no seio de minha mãe”, diz o salmista, “por modo assombrosamente maravilhoso me formaste” (Salmo 139.13–14). Quando os discípulos perguntaram quem havia pecado para que um homem nascesse cego, Jesus rejeitou a lógica da culpa: “Nem ele pecou, nem seus pais; mas foi para que se manifestem nele as obras de Deus” (João 9.3).

Paulo lembra que, no corpo de Cristo, “os membros do corpo que parecem ser mais fracos são necessários” (1 Coríntios 12.22). Uma igreja que só funciona para quem se encaixa num padrão de comportamento está deixando de fora parte do próprio corpo.

Como a igreja pode acolher famílias atípicas

  1. Ouvir antes de agir. Cada pessoa autista é diferente. Pergunte aos pais o que ajuda e o que atrapalha: barulho, luz, mudanças de rotina, toque.
  2. Adaptar o ambiente. Um espaço mais silencioso durante o culto, avisos antecipados de mudanças e materiais visuais no ministério infantil são medidas simples.
  3. Formar voluntários. Professores de escola bíblica e líderes de jovens podem buscar capacitação sobre TEA, de preferência com profissionais da área.
  4. Cuidar dos cuidadores. Pais de crianças autistas costumam enfrentar sobrecarga. Oferecer algumas horas de descanso, uma refeição ou companhia nas consultas é uma forma concreta de “levar as cargas uns dos outros” (Gálatas 6.2).
  5. Combater o estigma. Autismo não é falta de disciplina nem resultado de pecado. Comentários desse tipo afastam famílias da igreja.
  6. Incluir adolescentes e adultos. Os dados mostram que a exclusão aumenta com a idade. Grupos de jovens e adultos também precisam ser acessíveis.

Os números do Censo dão visibilidade a uma realidade que muitas famílias já conheciam. Cabe à igreja responder com acolhimento, preparo e amor.

Fontes

Imagem de capa: Hans-Peter Gauster / Wikimedia Commons (CC0 1.0)

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