Bíblia aberta no livro de Salmos sobre mesa de madeira

Neste domingo, 4 de outubro de 2026, milhões de brasileiros vão às urnas no primeiro turno das eleições para presidente da República, governadores, senadores e deputados federais, estaduais e distritais, segundo o calendário do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Em um dia assim, a pergunta que um grupo fez a Jesus há quase dois mil anos continua atual: como alguém que pertence a Deus deve se relacionar com o governo da sua terra? A resposta de Jesus em Mateus 22.15-22 não é um slogan de campanha. É um chamado para viver a cidadania com seriedade e a fé com inteireza, sem confundir as duas coisas.

Introdução: uma pergunta feita para dividir

O texto começa dizendo que os fariseus se reuniram para ver como apanhariam Jesus em alguma palavra (Mateus 22.15). Para isso, enviaram seus discípulos junto com os herodianos, grupo ligado à dinastia de Herodes e, portanto, acomodado ao poder romano. Fariseus e herodianos tinham pouco em comum, mas se uniram contra Jesus.

A pergunta vinha embrulhada em elogios: “Mestre, sabemos que és verdadeiro” (v. 16). Em seguida, a armadilha: “É lícito pagar tributo a César ou não?” (v. 17). Se Jesus dissesse “sim”, perderia o povo que sofria sob a ocupação romana. Se dissesse “não”, poderia ser acusado de rebelião diante das autoridades. Era uma pergunta desenhada para obrigá-lo a escolher um lado e ser destruído por isso.

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Jesus percebeu a malícia (v. 18), pediu que lhe mostrassem a moeda do tributo e perguntou de quem eram a imagem e a inscrição. “De César”, responderam. Então veio a frase que atravessou os séculos: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (v. 21). Os que vieram para prendê-lo em suas palavras se admiraram e foram embora (v. 22).

1. Jesus não se deixa capturar pela polarização

A primeira lição está na forma como Jesus responde. Ele não aceita os termos da armadilha. Não se torna porta-voz de nenhum dos grupos que tentavam usá-lo. Em vez de cair no “sim ou não” que lhe impuseram, eleva a conversa a um nível mais alto.

Em tempos de eleição, a igreja enfrenta a mesma tentação. Há quem queira transformar o púlpito em palanque e a fé em ferramenta de campanha. Há também quem reduza o próximo a um rótulo, como se o voto de alguém definisse todo o seu caráter. Jesus nos ensina outro caminho: discernir a intenção das perguntas, recusar a lógica do “nós contra eles” e manter o Evangelho acima de qualquer projeto humano de poder.

Isso não significa indiferença. Significa que a lealdade do cristão não está à venda. Irmãos que votam de forma diferente continuam sentados no mesmo banco, partindo o mesmo pão e confessando o mesmo Senhor.

2. O que é de César: a cidadania também é serviço

Jesus não despreza as responsabilidades civis. Ao dizer “dai a César”, ele reconhece que o governo tem um papel legítimo e que o discípulo deve cumprir seus deveres. O apóstolo Paulo desenvolve essa ideia em Romanos 13.7, ao orientar que se pague tributo a quem é devido tributo e honra a quem é devida honra. E, em 1 Timóteo 2.1-2, pede que se façam orações por todos os que estão investidos de autoridade, para que haja uma vida tranquila e sossegada.

Em uma democracia, dar a César o que é de César inclui coisas bem concretas:

  • Votar com responsabilidade: o voto não é um gesto automático, mas uma decisão que afeta vizinhos, escolas, hospitais e gerações futuras.
  • Informar-se com honestidade: conhecer propostas, trajetórias e compromissos, buscando fontes confiáveis.
  • Não espalhar mentiras: o mandamento “não dirás falso testemunho” (Êxodo 20.16) vale também para o celular. Compartilhar boatos sem checar é pecar com os dedos.
  • Respeitar as regras e o processo: cumprir a lei, respeitar os mesários e os demais eleitores, agir com civilidade.
  • Acompanhar depois da eleição: a cidadania não termina quando a urna é fechada. Cobrar, fiscalizar e orar pelos eleitos faz parte do serviço.

O cristão não é um turista na sociedade. Jeremias orientou os exilados na Babilônia a procurar a paz da cidade e a orar por ela, “porque na sua paz vós tereis paz” (Jeremias 29.7). Votar bem é uma forma de amar o próximo.

3. O que é de Deus: a imagem que nos pertence a Ele

A moeda trazia a imagem de César; por isso, podia ser devolvida a ele. Mas a pergunta implícita de Jesus vai mais fundo: e o que traz a imagem de Deus? Gênesis 1.27 responde que o ser humano foi criado à imagem de Deus. Se a moeda pertence a César porque tem a sua marca, a nossa vida pertence a Deus porque tem a marca dele.

Aqui está o limite de qualquer governo. César pode receber impostos, obediência às leis justas e respeito institucional. Mas não pode receber a nossa consciência, a nossa adoração, a nossa esperança última. Nenhum candidato, partido ou governo é salvador. Quando depositamos em uma eleição a esperança que só cabe a Cristo, transformamos um dever civil em idolatria.

Por isso, o cristão vota com seriedade, mas dorme em paz. Ele sabe que o Reino de Deus não sobe nem desce com o resultado de uma apuração. O Salmo 146.3 é um bom lembrete para o domingo de eleição: não confiar em príncipes, mas no Senhor.

Aplicação: como votar com consciência hoje

Para quem ainda vai à seção eleitoral, algumas atitudes práticas ajudam a viver Mateus 22.21 neste dia:

  • Ore antes de sair de casa. Peça sabedoria para decidir e serenidade para aceitar o resultado.
  • Vote pensando no bem comum, e não apenas em interesses pessoais. Pergunte-se como cada escolha afeta os mais vulneráveis: crianças, idosos, pobres, enfermos.
  • Avalie à luz de valores, não de paixões. Verdade, justiça, vida, família, honestidade e responsabilidade são critérios que a Escritura nos dá.
  • Fique atento ao horário. Segundo o TSE, as seções funcionam das 8h às 17h, pelo horário de Brasília; em estados com fuso diferente, o horário local muda. O encerramento ocorre às 17h, desde que não haja eleitores na fila.
  • Guarde a língua. Nas conversas de família e nos grupos da igreja, discorde sem ferir. Um voto passa; uma amizade ferida pode levar anos para ser restaurada.
  • Depois do resultado, ore pelos eleitos, sejam eles quem forem, como Paulo orienta em 1 Timóteo 2.1-2.

Conclusão: duas lealdades na ordem certa

A resposta de Jesus não divide a vida em duas metades iguais, uma para César e outra para Deus. Ela coloca as coisas na ordem certa. Damos a César o que é de César porque Deus nos manda ser bons cidadãos. E damos a Deus tudo o que somos, porque fomos feitos à sua imagem e comprados por Cristo.

Neste domingo, que cada cristão saia de casa com o título eleitoral na mão e o coração rendido ao Senhor. Que a igreja seja conhecida não pela gritaria, mas pela integridade, pela oração e pelo amor que continua firme, qualquer que seja o resultado.

Para refletir

  • Em que momentos você percebe que a polarização política tem afetado seus relacionamentos na família ou na igreja?
  • Que critérios bíblicos têm orientado, de fato, suas escolhas como eleitor?
  • Você tem depositado em algum líder ou projeto político uma esperança que só cabe a Deus?
  • Como você pode continuar exercendo a cidadania, com oração e acompanhamento, depois que a eleição terminar?

Fontes

Crédito da imagem: Tim Wildsmith. Fonte: https://unsplash.com/photos/an-open-bible-on-a-wooden-table-dWvtAmpE8bU. Licença: Unsplash License.

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