Desenho Cristo e Zaqueu, de Erasmus Quellinus II (1660), com Jesus olhando para Zaqueu no alto da árvore em meio à multidão
Imagem: Erasmus Quellinus II / Rijksmuseum / Wikimedia Commons (CC0)

Texto base: Lucas 19.1-10

Introdução

Há histórias na Bíblia que cabem em poucos versículos, mas carregam o evangelho inteiro. A história de Zaqueu é uma delas. Em dez versículos, vemos um homem perdido, uma multidão que atrapalha, um Salvador que para, uma casa transformada e uma frase que resume toda a missão de Jesus: “o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido” (Lc 19.10, ARA).

Vamos olhar para esse encontro em quatro cenas.

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1. Um homem rico, conhecido e rejeitado (vv. 1-2)

“Entrando em Jericó, atravessava Jesus a cidade. Eis que um homem, chamado Zaqueu, maioral dos publicanos e rico” (vv. 1-2, ARA).

Jericó era uma cidade próspera, situada numa rota importante de passagem no vale do Jordão. Para quem trabalhava com a cobrança de impostos a serviço do sistema romano, era um posto lucrativo. Zaqueu não era um publicano qualquer: Lucas o chama de architelōnēs (Strong G754), “chefe dos cobradores de impostos” — uma palavra que aparece somente aqui no Novo Testamento.

Os publicanos eram malvistos pelo povo judeu. Eram associados à colaboração com o poder estrangeiro e, muitas vezes, à cobrança abusiva. Por isso, nos Evangelhos, “publicanos” aparecem frequentemente ao lado de “pecadores” (Lc 5.30; 15.1).

Zaqueu tinha dinheiro, posição e influência, mas vivia isolado. Ele é o retrato de muitas pessoas hoje: bem-sucedidas por fora, vazias e sozinhas por dentro. O sucesso não havia resolvido o problema do seu coração.

2. Uma busca que vence os obstáculos (vv. 3-4)

“Procurava ver quem era Jesus, mas não podia, por causa da multidão, por ser ele de pequena estatura” (v. 3, ARA).

Zaqueu enfrentava dois obstáculos: um externo, a multidão; outro pessoal, a sua baixa estatura. Mas ele não desistiu. “Então, correndo adiante, subiu a um sicômoro a fim de vê-lo” (v. 4, ARA). O sicômoro (sykomorea, Strong G4809) é uma espécie de figueira, de galhos baixos e largos, fácil de escalar.

Imagine a cena: um homem rico e importante correndo e subindo numa árvore, como uma criança. Ele deixou de lado a dignidade e o medo do ridículo porque queria ver Jesus.

Às vezes, a multidão é o que nos impede de ver Jesus: as opiniões dos outros, a correria, a religiosidade vazia, o barulho do mundo. Outras vezes, o obstáculo está em nós: nossas limitações, nossos pecados, nosso orgulho. A história de Zaqueu nos mostra que vale a pena “subir na árvore” — tomar uma atitude concreta para buscar o Senhor.

3. Jesus toma a iniciativa (vv. 5-7)

“Quando Jesus chegou àquele lugar, olhando para cima, disse-lhe: Zaqueu, desce depressa, pois me convém ficar hoje em tua casa” (v. 5, ARA).

Este é o centro da história. Zaqueu queria ver Jesus, mas descobriu que Jesus já o via. O Senhor para no meio da multidão, olha para cima e o chama pelo nome.

A expressão “me convém” traduz o verbo grego dei (Strong G1163), que indica necessidade. Lucas o usa com frequência para falar daquilo que faz parte do plano de Deus para Jesus. Não foi um acaso; aquele encontro estava no propósito divino.

Zaqueu “desceu a toda a pressa e o recebeu com alegria” (v. 6, ARA). Mas nem todos gostaram: “Todos os que viram isto murmuravam, dizendo que ele se hospedara com homem pecador” (v. 7, ARA). A mesma crítica aparece em outros momentos do Evangelho (Lc 15.2). Para a multidão, Zaqueu era um caso perdido. Para Jesus, era exatamente o tipo de pessoa que ele veio buscar.

Que isso nos examine como igreja: somos parte da multidão que murmura ou da comunidade que se alegra quando pecadores encontram Jesus?

4. A salvação que transforma (vv. 8-10)

Não sabemos tudo o que foi conversado naquela casa. Mas sabemos o resultado: “Senhor, resolvo dar aos pobres a metade dos meus bens; e, se nalguma coisa tenho defraudado alguém, restituo quatro vezes mais” (v. 8, ARA).

Zaqueu não foi obrigado a nada. Ninguém lhe impôs uma condição. A transformação nasceu de dentro, como resposta à graça. E ela foi generosa: a Lei previa, em casos de apropriação indevida, a restituição do valor acrescido de um quinto (Lv 6.5; Nm 5.7); a restituição de quatro vezes aparece no caso de furto de ovelhas (Êx 22.1). Zaqueu escolheu a medida mais pesada. O dinheiro, que antes era o seu deus, passou a ser instrumento de justiça e de generosidade.

Então Jesus declara: “Hoje, houve salvação nesta casa, pois que também este é filho de Abraão. Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido” (vv. 9-10, ARA).

Repare que a ordem é importante. Zaqueu não foi salvo porque devolveu o dinheiro; ele devolveu o dinheiro porque a salvação havia chegado à sua casa. As boas obras não são a raiz da salvação, mas o seu fruto. Como escreveu Paulo: “se alguém está em Cristo, é nova criatura” (2Co 5.17, ARA).

Aplicação

  • Ninguém está longe demais. Se Jesus alcançou o chefe dos publicanos de Jericó, ele pode alcançar você e aquele parente por quem você ora há anos.
  • Não deixe que a multidão o impeça de ver Jesus. Tome atitudes concretas: separe tempo para ler a Bíblia, volte a congregar, procure um irmão maduro na fé.
  • Responda ao chamado com pressa e alegria. “Desce depressa.” Adiar a resposta a Jesus é sempre perigoso.
  • Deixe a graça tocar o seu bolso. A conversão verdadeira alcança também o dinheiro, os negócios e a maneira como tratamos as pessoas.
  • Seja uma igreja que se alegra, não que murmura. Quando alguém se converte, a reação correta é a festa.

Conclusão

Zaqueu subiu na árvore para ver Jesus, mas desceu porque Jesus o chamou. Ele procurou o Senhor, mas descobriu que o Senhor o procurava primeiro. Essa é a boa notícia do evangelho: “o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido”. Talvez hoje Jesus esteja parando diante de você e dizendo o seu nome. Não fique na árvore. Desça depressa e receba-o com alegria.

Referências

Passagens bíblicas: Lucas 19.1-10; 5.30; 15.1-2; Levítico 6.5; Números 5.7; Êxodo 22.1; 2 Coríntios 5.17. Citações da Almeida Revista e Atualizada (ARA), Sociedade Bíblica do Brasil.

Imagem de capa: Erasmus Quellinus II / Rijksmuseum / Wikimedia Commons (CC0)

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