Interior de igreja cristã com bancos e altar

Em 31 de outubro de 1517, o monge e professor Martinho Lutero enviou ao arcebispo de Mainz uma carta acompanhada de 95 teses em latim contra a venda de indulgências. O gesto, pensado como convite a um debate acadêmico, acabou se tornando o marco inicial da Reforma Protestante. Nesta primeira parte da série sobre a Reforma, relembramos quem foi Lutero, o que as teses diziam, o que é fato e o que é lenda nessa história — e por que a redescoberta da graça em Romanos 1.17 ainda fala à igreja de hoje.

Quem foi Martinho Lutero

Segundo a Enciclopédia Britannica, Lutero nasceu em 10 de novembro de 1483, em Eisleben, na Saxônia (atual Alemanha), e morreu na mesma cidade em 18 de fevereiro de 1546. Estudou na Universidade de Erfurt, tornou-se monge agostiniano, obteve o doutorado e passou a lecionar na Universidade de Wittenberg, onde ensinava as Escrituras.

Foi como professor da Bíblia que Lutero viveu sua grande crise espiritual. Angustiado com a própria culpa, encontrou em Romanos 1.17 — que cita Habacuque 2.4, “o justo viverá pela fé” — a chave para entender o evangelho: a justiça de Deus não é apenas a exigência que condena o pecador, mas o presente que Deus dá, pela graça, a quem crê. Essa doutrina da justificação pela fé, somente pela graça de Deus, tornou-se o centro de sua teologia.

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O problema das indulgências

Na teologia medieval, a indulgência era a remissão de penas temporais pelos pecados, concedida pela Igreja. No início do século 16, a prática havia se tornado também uma fonte de arrecadação. Em 1515, o papa Leão X concedeu uma indulgência plenária destinada a financiar a construção da Basílica de São Pedro, em Roma. Em 1517, Johann Tetzel foi encarregado de pregá-la, e sua campanha em cidades próximas a Wittenberg levou muitos moradores da cidade a viajar para comprá-las.

Para Lutero, que atendia essas pessoas como pastor e professor, o problema era mais que financeiro. A venda de indulgências dava aos fiéis uma falsa segurança e desviava a atenção do arrependimento verdadeiro e da confiança em Cristo.

O que diziam as 95 teses

As teses foram escritas em latim, a língua da universidade, como proposições para debate — era um convite a uma discussão entre estudiosos, não um panfleto popular. A primeira tese já apontava o foco: quando Jesus disse “Arrependei-vos”, quis que toda a vida dos crentes fosse de arrependimento (compare com Mateus 4.17).

Entre as ideias centrais do documento, estão:

  • O arrependimento verdadeiro já traz o perdão que as indulgências prometiam oferecer;
  • dar aos pobres tem mais valor diante de Deus do que comprar indulgências, e quem deixa o necessitado para comprá-las atrai o desagrado de Deus;
  • o verdadeiro tesouro da Igreja é o evangelho da glória e da graça de Deus — tema desenvolvido nas teses 56 a 66.

Vale notar que, em 1517, Lutero ainda não propunha romper com Roma. Ele questionava abusos e pedia debate. A ruptura viria nos anos seguintes, à medida que o conflito se aprofundou.

Fato e lenda: a porta de Wittenberg

A imagem mais famosa da Reforma é a de Lutero pregando, a marteladas, as teses na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg. A Britannica registra que as teses foram “possivelmente” afixadas ali, e historiadores discutem se isso aconteceu em 31 de outubro, algumas semanas depois ou se aconteceu de fato. O que está bem documentado é a carta de 31 de outubro de 1517 ao arcebispo de Mainz, Alberto de Brandemburgo, sob cuja autoridade as indulgências eram vendidas.

Outro ponto indiscutível é a rapidez da difusão. As teses em latim foram impressas em Basileia, em forma de livreto, e como cartazes em Leipzig e Nuremberg. Ainda naquele ano, Kaspar Nützel as traduziu para o alemão em Nuremberg, e cópias circularam por várias regiões. A imprensa, uma tecnologia relativamente nova, transformou um debate universitário numa discussão pública.

Algo semelhante ocorre com a frase “Aqui estou; não posso fazer outra coisa”, atribuída a Lutero diante do imperador. Pesquisadores consideram a evidência para essas palavras pouco confiável, porque elas só aparecem em versões posteriores do discurso. A firmeza de Lutero em Worms, porém, é fato histórico.

De Wittenberg a Worms: a cronologia do conflito

  • 31 de outubro de 1517 — carta ao arcebispo de Mainz com as 95 teses.
  • 15 de junho de 1520 — o papa publica a bula Exsurge Domine, ameaçando Lutero de excomunhão caso não se retratasse.
  • 10 de dezembro de 1520 — Lutero queima publicamente a bula em Wittenberg.
  • 3 de janeiro de 1521 — excomunhão pela bula Decet Romanum Pontificem.
  • 17 de abril de 1521 — Lutero se apresenta à Dieta de Worms, presidida pelo imperador Carlos V, e se recusa a retratar-se.
  • 25 de maio de 1521 — o Édito de Worms declara Lutero fora da lei, proíbe seus escritos e ordena sua prisão.

Protegido por aliados, Lutero foi levado ao Castelo de Wartburg, perto de Eisenach. Ali traduziu o Novo Testamento do grego para o alemão, publicado em 1522; a Bíblia completa em alemão sairia em 1534. Em 1525, casou-se com Katharina von Bora. O professor que pedira um debate acabou colocando as Escrituras nas mãos do povo, na sua própria língua — tema que abordamos no estudo sobre como a Bíblia chegou ao português e às línguas indígenas.

O 31 de outubro passou a ser lembrado como Dia da Reforma. Em 1668, a data foi oficializada na Saxônia eleitoral e depois se espalhou por outros territórios luteranos; em 2017, os 500 anos foram feriado nacional na Alemanha.

O que 1517 ainda ensina

Lembrar a Reforma não é celebrar um homem. Lutero foi um homem com falhas, como todos os servos de Deus na história da igreja. O que permanece é o conteúdo que ele redescobriu nas Escrituras.

  • A salvação é dom, não mercadoria. “Pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus” (Efésios 2.8-9). Nenhum pagamento, ritual ou mérito compra o perdão.
  • O arrependimento é para a vida toda. A primeira tese continua atual: a vida cristã não é um evento isolado, mas uma caminhada diária de volta a Deus.
  • A Palavra julga a prática da igreja. Lutero levou costumes consagrados de volta ao texto bíblico. Toda geração precisa fazer o mesmo, inclusive a igreja evangélica, que também pode transformar bênçãos em comércio.
  • A fé se mostra no amor ao próximo. As teses sobre os pobres lembram que a graça recebida gera generosidade (Tiago 2.14-17).

Na segunda parte desta série, publicada amanhã, veremos quais princípios da Reforma chegaram à igreja brasileira e como o protestantismo se estabeleceu no país.

Para refletir

  • Em que situações ainda tentamos “comprar” o favor de Deus com desempenho religioso, ofertas ou boas obras?
  • O que significa, na prática, viver uma vida inteira de arrependimento, como diz a primeira tese?
  • Há costumes na sua igreja ou família que precisam ser avaliados novamente à luz das Escrituras?
  • Como Romanos 1.17 e Efésios 2.8-9 mudam a forma como você lida com a culpa e com a segurança da salvação?

Fontes

Imagem de capa: Unsplash (Unsplash License)

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