Mãos com um X vermelho pintado erguidas ao lado de placa com a frase "Denuncie, disque 180" em protesto contra o feminicídio
Imagem: Paulo H. Carvalho / Agência Brasília, via Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

O Brasil registrou 1.571 vítimas de feminicídio em 2025, o maior número da série histórica, segundo a 20ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgada em 23 de julho de 2026 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). O total representa alta de 4% em relação a 2024 e uma taxa de 1,4 feminicídio para cada 100 mil mulheres. É o quarto recorde consecutivo do indicador.

O dado contrasta com a tendência geral da violência letal. No mesmo ano, o país registrou 40.775 Mortes Violentas Intencionais, queda de 8,2% e a menor taxa da série (19,1 por 100 mil habitantes). Segundo o Anuário, feminicídios e mortes decorrentes de intervenção policial foram as únicas modalidades de morte violenta que cresceram.

Quem são as vítimas e quem são os agressores

O perfil traçado pelo Anuário mostra que o feminicídio é, sobretudo, um crime do ambiente doméstico e das relações próximas:

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  • 62,5% das vítimas foram mortas dentro da própria residência;
  • 65,1% eram mulheres negras;
  • 56,5% tinham entre 25 e 44 anos;
  • quando a autoria foi identificada, 96,4% dos crimes foram cometidos por homens;
  • em 60,9% dos casos o autor era o parceiro íntimo; em 18,9%, um ex-parceiro; em 12,1%, um familiar.

Em 2025, segundo o FBSP, 44,4% de todas as mulheres assassinadas no país morreram por razões de gênero — o maior percentual desde 2015, quando o feminicídio passou a constar do Código Penal. O ano também foi o primeiro de vigência integral da Lei nº 14.994/2024, que transformou o feminicídio em crime autônomo, e não mais uma qualificadora do homicídio.

Para a coordenadora de Gênero e Raça do FBSP, Juliana Brandão, a mudança legal ajudou a qualificar os registros, mas não explica sozinha a alta. “Se fosse apenas uma melhoria dos registros, esperaríamos uma estabilização dos números após alguns anos. O que observamos é um crescimento contínuo, acompanhado também pelo aumento de outros crimes relacionados à violência de gênero”, disse à CNN Brasil.

A morte costuma ser o fim de uma sequência

O Anuário reforça que o feminicídio raramente é um episódio isolado. Em 2025, 4.189 mulheres sobreviveram a tentativas de feminicídio (alta de 5,9%): para cada crime consumado, houve 2,7 tentativas.

Para cada feminicídio registrado, houve em média cerca de 502 registros de ameaça, 182 de lesão corporal dolosa em contexto de violência doméstica, 84 de descumprimento de medida protetiva, 79 de perseguição (stalking) e 39 de violência psicológica. Os registros de stalking cresceram 30% e os de violência psicológica, quase 17%, segundo a pesquisadora.

O dado que talvez mais preocupe diz respeito às medidas protetivas de urgência, decisões judiciais que proíbem o agressor de se aproximar da vítima. Entre os estados que informaram esse dado, 70 mulheres foram assassinadas mesmo com medida protetiva ativa — uma em cada nove vítimas. O país registrou ainda 132.025 casos de descumprimento de medidas protetivas, alta de 16,7%.

“Estamos falando do descumprimento de uma decisão judicial emitida pelo próprio Estado. Quando essa ordem não é cumprida, o risco para a mulher permanece elevado”, afirmou Brandão.

O que diz o governo federal

Em nota enviada à CNN Brasil, o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) afirmou que dados do Monitoramento Nacional da Violência contra a Mulher, mantido pela pasta e pelo Ministério das Mulheres, apontam tendência de redução: 741 feminicídios no primeiro semestre de 2026, contra 760 no mesmo período de 2025 (queda de 2,5%). Trata-se de uma base diferente da usada pelo Anuário e de um período ainda parcial.

O ministério citou ações como o Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio, a Operação Integrada Mulher Segura e as Salas Lilás para acolhimento de vítimas. Segundo o Conselho Nacional de Justiça, citado pela pasta, 85% das medidas protetivas são analisadas em até 24 horas.

A avaliação dos pesquisadores do FBSP é que a persistência da violência doméstica exige uma estratégia centrada em prevenção, intervenção precoce e monitoramento dos fatores de risco, e não apenas em repressão.

Análise: a violência que acontece perto de nós

Este trecho é uma análise editorial, sob perspectiva cristã.

Os números do Anuário tratam de um tema que atravessa todas as comunidades, inclusive as de fé: a maior parte das vítimas morreu em casa, pelas mãos de alguém com quem dividia a vida. Isso significa que a violência doméstica não é um problema “de fora” — ela pode estar sentada no banco ao lado.

A tradição cristã ensina que o marido deve amar a esposa “como Cristo amou a igreja e entregou-se por ela” (Efésios 5.25). Nenhuma leitura bíblica autoriza controle, ameaça ou agressão. Quando uma mulher pede ajuda, o papel de líderes e irmãos é acolher, proteger e encaminhar aos serviços competentes — nunca aconselhar que permaneça em situação de risco em nome da preservação do casamento.

O dado sobre as sequências de violência também indica um caminho: ameaças, perseguição e descumprimento de medidas protetivas são sinais de alerta. Igrejas que conhecem suas famílias e mantêm redes de cuidado podem ajudar a identificar esses sinais cedo e a orientar as vítimas a buscar a rede de proteção.

Onde buscar ajuda

  • Ligue 180 — Central de Atendimento à Mulher, gratuita, 24 horas.
  • 190 — Polícia Militar, em situação de emergência.
  • Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (Deams) e Centros de Referência da rede de assistência social.

Fontes

Imagem de capa: Paulo H. Carvalho / Agência Brasília, via Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

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