Ruínas da Igreja Assíria do Oriente de Santa Maria, em Tell Nasri, na Síria, destruída pelo Estado Islâmico em 2015
Imagem: Bito Bito / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

A edição 2026 da Lista Mundial da Perseguição (LMP), levantamento anual da organização missionária Portas Abertas, estima que mais de 388 milhões de cristãos vivem sob níveis altos de perseguição e discriminação por causa da fé. O relatório, lançado em 13 de janeiro de 2026, cobre o período de 1º de outubro de 2024 a 30 de setembro de 2025 e classifica os 50 países em que seguir a Cristo representa maior risco.

Segundo a Portas Abertas, o número de países com perseguição classificada como “extrema” subiu de 13 para 15. Dos 50 países listados, 34 registraram aumento da perseguição em relação à edição anterior.

Os 15 países com perseguição extrema

A Coreia do Norte segue no topo do ranking. Na sequência aparecem Somália, Iêmen, Sudão, Eritreia, Síria, Nigéria, Paquistão, Líbia, Irã, Afeganistão, Índia, Arábia Saudita, Mianmar e Mali.

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O maior salto foi o da Síria, que passou da 18ª para a 6ª posição — o nível mais alto de perseguição já registrado para o país na série da LMP, segundo a organização. A Portas Abertas atribui a mudança ao aumento da violência, com ataques a igrejas, fechamento de escolas cristãs e assassinatos de cristãos. De acordo com o relatório, a queda do regime de Bashar al-Assad, em dezembro de 2024, abriu espaço para milícias e grupos armados locais, deixando os cristãos mais vulneráveis a intimidação, extorsão e ataques. O relatório cita o atentado suicida contra cristãos em Damasco, em junho de 2025, que deixou 22 mortos. A organização estima que restem cerca de 300 mil cristãos na Síria, ante 1,1 milhão em 2015 — números que, segundo a própria Portas Abertas, são difíceis de medir com precisão no Oriente Médio.

O Mali, em 15º lugar, também passou a figurar entre os países de perseguição extrema. Ali, segundo a organização, cristãos são alvo de extremistas islâmicos e enfrentam deslocamento forçado, extorsão e ataques a igrejas e comunidades.

Nigéria continua sendo o país mais letal

Os números de violência física chamam atenção. A LMP 2026 contabiliza 4.849 cristãos mortos por motivos relacionados à fé no período analisado, ante 4.476 na edição anterior. Desse total, 3.490 eram nigerianos — cerca de 72% do total global e acima dos 3.100 registrados no país na edição de 2025.

Segundo a Portas Abertas, 93% das mortes (4.491) ocorreram na África Subsaariana. Três países da região atingiram a pontuação máxima no índice de violência da metodologia: Sudão, Nigéria e Mali. A organização também destaca a subida da República Democrática do Congo (29ª posição) e de Camarões (37ª), ambos seis posições acima do ano anterior. No Congo, cristãos foram alvo de ataques das Forças Democráticas Aliadas (ADF).

Os principais números do relatório

De acordo com os dados da LMP 2026 reproduzidos pela Portas Abertas e pelo jornal O São Paulo, da Arquidiocese de São Paulo:

  • Cristãos mortos por causa da fé: de 4.476 para 4.849;
  • Cristãos abusados física ou mentalmente: de 54.780 para 67.843;
  • Casos de estupro ou assédio sexual: de 3.123 para 4.055;
  • Casamentos forçados com não cristãos: de 821 para 1.147;
  • Cristãos condenados por causa da fé: de 1.140 para 1.298;
  • Cristãos sequestrados: 3.302 (queda em relação à edição anterior);
  • Ataques a igrejas ou propriedades cristãs: de 7.679 para 3.632 (queda);
  • Cristãos forçados a fugir ou se esconder dentro do próprio país: 201.427;
  • Cristãos obrigados a deixar o país: 22.702 (queda em relação ao ano anterior).

Segundo a Portas Abertas, apesar da queda nos ataques a propriedades, os índices de violência física e sexual cresceram de forma significativa. A organização informa ainda que, há dez anos, os 12 países subsaarianos então presentes na lista somavam 49% da pontuação máxima possível de violência; em 2026, os 14 países da região chegam a 88%.

América Latina também aparece no ranking

Quatro países latino-americanos estão na lista de 2026: Cuba (24º), México (30º), Nicarágua (32º) e Colômbia (47º). Segundo a Portas Abertas, há um reconhecimento crescente dos riscos que o crime organizado representa para líderes religiosos no México e na Colômbia, e um monitoramento internacional mais intenso sobre a situação na Nicarágua e em Cuba. México, Nicarágua e Colômbia caíram uma ou duas posições em relação a 2025; Cuba subiu do 26º para o 24º lugar.

Mudanças no fim da lista

O Nepal voltou ao ranking, em 46º lugar, após ficar fora das edições de 2023 a 2025. Segundo a Portas Abertas, houve mais igrejas atacadas e mais cristãos presos e agredidos no país. Como a lista se limita a 50 nações, o Vietnã deixou o ranking — o que, ressalta a organização, não significa que a perseguição no país tenha acabado.

Análise: o que esses números pedem da igreja brasileira

Este trecho é uma análise editorial, sob perspectiva cristã.

Para quem vive a fé com liberdade no Brasil, números como 4.849 mortos ou 201 mil deslocados podem parecer distantes. As Escrituras, porém, tratam a perseguição como parte da experiência da igreja (“Lembrem-se dos que estão na prisão, como se estivessem presos com eles”, Hebreus 13.3) e chamam o corpo de Cristo a sofrer junto com seus membros (1 Coríntios 12.26).

Três respostas práticas costumam ser recomendadas por organizações que atuam com a igreja perseguida: informar-se com fontes confiáveis, orar de forma específica por países e comunidades citados nos relatórios e apoiar, com transparência, iniciativas sérias de ajuda humanitária, jurídica e pastoral. Também é um lembrete de que a liberdade religiosa — inclusive a de outras crenças — é um bem a ser defendido publicamente, pelos meios legais e democráticos.

Relatórios como a LMP têm limites metodológicos e dependem de dados coletados em contextos de conflito, o que exige leitura cuidadosa. Ainda assim, a tendência registrada em 2026 — mais países com perseguição extrema e mais violência física e sexual — é um alerta que não deve ser ignorado.

Fontes

Imagem de capa: Bito Bito / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

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