O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) liberou, em 31 de agosto de 2026, os microdados da amostra do Censo Demográfico 2022 — a base com os resultados definitivos que permite a pesquisadores produzir as próprias tabulações. Junto com os arquivos, o instituto publicou uma nota metodológica específica sobre religião que ajuda a entender por que o retrato do segmento evangélico continua incompleto.
O que já se sabia
Os primeiros números sobre religião do Censo 2022 foram divulgados em junho de 2025, com base nos resultados preliminares da amostra e considerando apenas pessoas com 10 anos ou mais. Segundo o IBGE, 56,7% dessa população se declarou católica apostólica romana (100,2 milhões de pessoas), 26,9% evangélica (47,4 milhões) e 9,3% sem religião (16,4 milhões).
Em relação a 2010, os católicos recuaram 8,4 pontos percentuais (de 65,1% para 56,7%) e os evangélicos cresceram 5,2 pontos (de 21,6% para 26,9%). O IBGE observou que esse avanço foi menor que o registrado entre 2000 e 2010 (6,5 pontos). Umbanda e candomblé passaram de 0,3% para 1%, e o grupo sem religião aumentou 1,4 ponto.
Na época, porém, o instituto apresentou todos os evangélicos em uma única categoria, sem separar igrejas de missão (históricas) e pentecostais, como fazia em censos anteriores.
O que os microdados acrescentam
Na nova divulgação, o IBGE passou a separar o grande grupo evangélico em quatro subcategorias: “Evangélicas de Missão”, “Evangélicas de origem pentecostal”, “Igrejas evangélicas indígenas” e “Evangélica não determinada”. Também voltou a desagregar outros grupos antes reunidos, como ateus e agnósticos (dentro dos sem religião), testemunhas de Jeová e mórmons, além de separar umbanda e candomblé.
Levantamento feito pela Folha de S.Paulo com os microdados indica que:
- os evangélicos “não determinados” — pessoas que se declararam genericamente “evangélicas” ou “crentes”, sem citar uma igreja — somam 15,6% da população de 10 anos ou mais, percentual que também consta da nota do IBGE;
- os fiéis de igrejas pentecostais somam 14,3 milhões (8,1%);
- os evangélicos de missão, de tradição protestante histórica, somam 5,6 milhões (3,2%);
- considerando também outras denominações que se declaram cristãs, como testemunhas de Jeová (0,7%) e mórmons, o conjunto cristão chega a 86,9% da população recenseada, segundo o cálculo do jornal;
- os ateus são cerca de 1,7 milhão (1%) e os agnósticos, 881 mil (0,5%); segundo a Folha, o número de ateus triplicou em relação a 2010.
Por que o grupo “não determinado” cresceu tanto
A nota metodológica 06/2026 do IBGE explica que a proporção de evangélicos sem denominação identificada passou de 4,8% em 2010 para 15,6% em 2022, enquanto os grupos de missão e pentecostal encolheram de forma “inesperada”. Por isso, o instituto decidiu, ainda em 2025, divulgar os evangélicos como um único bloco e revisar os procedimentos.
Segundo o documento, a revisão não encontrou problemas na redação da pergunta, no aplicativo de coleta ou na codificação das respostas. O instituto identificou, porém, uma diferença nos materiais de treinamento: em 2010, o Manual do Recenseador orientava expressamente a não registrar expressões genéricas como “Crente” ou “Evangélica”, o que levava o entrevistador a perguntar a denominação específica. Essa instrução não constava dos materiais de 2022.
O IBGE conclui que a ausência da orientação “pode ter influenciado o comportamento dos recenseadores”, aumentando o registro da resposta genérica em detrimento das denominações, mas afirma que “não é possível quantificar os efeitos”. Por isso, o instituto decidiu não divulgar dados por denominação específica (como Assembleia de Deus ou Batista) e alerta que as quatro subcategorias evangélicas de 2022 não são comparáveis com as de 2010.
A nota relata ainda que, na checagem, apareceram números considerados “inverossímeis” para as categorias “evangélica luterana” (cerca de dez vezes maior que em 2010) e “comunidade evangélica” (sete vezes maior). A hipótese do IBGE é que alguns recenseadores, ao digitar “evangélica” e não encontrar a opção genérica no aplicativo, tenham selecionado as primeiras sugestões exibidas.
Durante a revisão, o IBGE consultou pesquisadores do Instituto de Estudos da Religião (Iser) e dois acadêmicos indicados pela comissão consultiva do Censo, ressaltando que a responsabilidade pelas decisões foi do próprio instituto.
O que dizem especialistas
Ouvida pela Folha, a cientista política Ana Carolina Evangelista, do Iser, afirmou que os dados mostram como “grandes grupos religiosos escondem diferenças internas importantes” e que é preciso entender a relevância dos evangélicos sem vínculo com igreja, os chamados “desigrejados”. O demógrafo José Eustáquio Alves, pesquisador aposentado do IBGE, disse ao jornal que o Censo 2022 “teve muitos problemas na sua aplicação”, citando o adiamento pela pandemia, restrições orçamentárias e dificuldades de acesso a áreas dominadas pelo crime.
Outro cuidado: em 2022, a pergunta sobre religião só foi feita a pessoas com 10 anos ou mais. O IBGE ressalta que qualquer comparação com 2010 precisa usar o mesmo recorte etário.
Análise: o que os números dizem — e o que não dizem
Este trecho é uma análise editorial, sob perspectiva cristã.
Os dados confirmam que o Brasil segue majoritariamente cristão e que a presença evangélica nunca foi tão grande. Mas é preciso cautela com leituras apressadas. Pelo próprio alerta do IBGE, o Censo 2022 não permite afirmar que igrejas pentecostais ou históricas “encolheram”: a queda nessas subcategorias pode ser efeito de mudança no treinamento, não da realidade.
Para igrejas e lideranças, o dado mais útil talvez seja justamente o que não se consegue medir: quantas das pessoas que se dizem apenas “evangélicas” mantêm vínculo com uma comunidade local? A pergunta pastoral sobre discipulado e pertencimento não será respondida por estatística — mas o crescimento do grupo sem religião e dos ateus é um sinal a ser acompanhado com atenção e sem alarmismo.
Fontes
- IBGE. Censo Demográfico 2022 — Notas metodológicas 06/2026: Classificação dos grupos de religiões adotada na divulgação dos microdados da amostra (2026). https://ftp.ibge.gov.br/Censos/Censo_Demografico_2022/Microdados_e_Areas_de_Ponderacao/Documentacao/Notas%20metodol%c3%b3gicas/
- IBGE. Página do Censo 2022 (publicações e notas). https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/trabalho/22827-censo-demografico-2022.html
- IBGE. Censo Demográfico 2022: religiões — resultados preliminares da amostra (2025). https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv102182.pdf
- Folha de S.Paulo. “Novos dados do Censo 2022 revelam um Brasil 87% cristão; ateus triplicam” (02/09/2026). https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/09/novos-dados-do-censo-2022-revelam-um-brasil-87-cristao-ateus-triplicam.shtml
- BBC News Brasil. “Censo 2022 religião: o que pesquisa revela sobre evangélicos e mais 7 dados inéditos” (06/06/2025). https://www.bbc.com/portuguese/articles/crk2p5xr0m7o
Imagem de capa: Friduxa / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)