Se você está passando por sofrimento emocional, não está sozinho. O Centro de Valorização da Vida (CVV) atende gratuitamente, 24 horas por dia, pelo telefone 188, por chat e e-mail em cvv.org.br. Em emergência, ligue 192 (Samu).
O Brasil registrou 16.533 mortes por suicídio em 2025, segundo dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), do Ministério da Justiça e Segurança Pública, compilados pela Rádio Itatiaia no início do Setembro Amarelo. É o maior número da série consultada e equivale a uma média de 45 mortes por dia.
Entre 2020 e 2025, os registros passaram de 13.163 para 16.533, alta de 25,6%. A taxa subiu de 6,29 para 7,75 mortes por 100 mil habitantes no período, com uma leve redução em 2024 (16.412 casos e taxa de 7,72) antes de voltar a subir.
Diferenças entre regiões e estados
Em números absolutos, o Sudeste concentrou 6.284 registros em 2025, seguido por Nordeste (4.027), Sul (3.142), Centro-Oeste (1.686) e Norte (1.394). Considerando a população, porém, a maior taxa foi a da Região Sul (10,03 por 100 mil), seguida pelo Centro-Oeste (9,78).
Entre os estados, São Paulo teve o maior número absoluto (2.995), seguido por Minas Gerais (1.987) e Rio Grande do Sul (1.448). As maiores taxas foram as do Rio Grande do Sul (12,89), Piauí (12,56) e Santa Catarina (11,82).
Um cuidado importante: o Sinesp reúne registros das secretarias de segurança pública. Os números oficiais de mortalidade da área da saúde vêm do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, que usa outra metodologia e cujos dados mais recentes passam por etapas de consolidação. As duas bases podem apresentar números diferentes.
O cenário mundial
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 727 mil pessoas morrem por suicídio a cada ano no mundo. Segundo a entidade, o suicídio foi a terceira principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos em 2021, e 73% das mortes ocorreram em países de baixa e média renda. A OMS ressalta que, para cada suicídio, há muitas outras tentativas, e que uma tentativa anterior é um importante fator de risco.
No Brasil, o último boletim epidemiológico do Ministério da Saúde dedicado ao tema, com dados até 2021, registrou 15.507 óbitos naquele ano, 77,8% deles entre homens.
O alerta sobre crianças, adolescentes e internet
Um levantamento divulgado pela Folha de S.Paulo em 26 de setembro de 2026 acendeu outro alerta. Segundo análise do Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad) da Polícia Civil de São Paulo, os casos de suicídio e tentativa de suicídio relacionados à internet, redes sociais ou plataformas digitais envolvendo crianças e adolescentes cresceram 38% no estado no primeiro semestre de 2026, na comparação com o mesmo período de 2025.
Foram 134 casos entre 1º de janeiro e 29 de junho de 2026 (84 tentativas e 50 mortes), contra 130 casos no mesmo período de 2025 (97 tentativas e 33 mortes). Não há dados comparáveis de anos anteriores. Segundo a polícia, parte dos casos envolve grupos fechados on-line em que crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade são aliciados, pressionados e chantageados a praticar autolesão.
A psicóloga Karen Scavacini, fundadora do Instituto Vita Alere, disse ao jornal que a busca por pertencimento pode ser explorada nesses ambientes. Já Rodrigo Nejm, do Instituto Alana, ponderou que a experiência digital não causa, sozinha, comportamentos extremos, mas a falta de proteção pode agravar o sofrimento.
Induzir, instigar ou auxiliar alguém a praticar suicídio ou automutilação é crime previsto no artigo 122 do Código Penal, com pena aumentada quando a conduta ocorre por meio da internet ou de transmissão em tempo real.
Sinais de alerta e como ajudar
O Ministério da Saúde orienta que mudanças importantes de comportamento e manifestações de sofrimento sejam levadas a sério, especialmente quando vários sinais aparecem ao mesmo tempo: manifestações verbais relacionadas à morte ou à falta de perspectiva, alterações importantes de comportamento, agravamento do sofrimento e situações de crise. A pasta ressalta que não há fórmula para identificar com certeza uma crise suicida — o essencial é não ignorar a mudança.
A abordagem deve ser feita com escuta e sem julgamento. Diante de risco imediato, a orientação é não deixar a pessoa sozinha e acionar os serviços de emergência. No SUS, o atendimento pode ser buscado em Unidades Básicas de Saúde, Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), UPAs e prontos-socorros.
Análise: a igreja como lugar de escuta
Este trecho é uma análise editorial, sob perspectiva cristã.
As Escrituras não escondem a dor humana. Salmistas clamaram “das profundezas” (Salmo 130.1), e o profeta Elias chegou a pedir a morte (1 Reis 19.4) — e foi cuidado com descanso, alimento e presença. Esses textos lembram que sofrimento emocional não é sinal de fé fraca.
Comunidades cristãs podem ser espaços de acolhimento: ouvir sem julgar, desfazer o estigma em torno da saúde mental, encorajar a busca de tratamento profissional e caminhar ao lado de famílias enlutadas. Oração e cuidado pastoral não substituem o acompanhamento de profissionais de saúde; somam-se a ele.
Os dados de São Paulo reforçam ainda a importância da presença dos pais na vida digital dos filhos. Conversar, acompanhar e saber com quem as crianças interagem on-line é hoje parte do cuidado.
Fontes
- Rádio Itatiaia. “Setembro Amarelo: MG tem 2° maior número de suicídios do Brasil e país bate recorde de casos” (01/09/2026), com dados do Sinesp/MJSP. https://www.itatiaia.com.br/brasil/sudeste/mg/setembro-amarelo-mg-tem-2-maior-numero-de-suicidios-do-brasil-e-pais-bate-recorde-de-casos/
- Ministério da Justiça e Segurança Pública. Dados Nacionais de Segurança Pública (Sinesp). https://www.gov.br/mj/pt-br/assuntos/sua-seguranca/seguranca-publica/estatistica
- Folha de S.Paulo. “Cresce número de suicídios de crianças e adolescentes relacionado a internet e redes sociais” (26/09/2026). https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/09/cresce-numero-de-suicidios-de-criancas-e-adolescentes-relacionado-a-internet-e-redes-sociais.shtml
- Organização Mundial da Saúde. “Suicide” (fact sheet). https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/suicide
- Ministério da Saúde. Boletim Epidemiológico vol. 55, nº 4: Panorama dos suicídios e lesões autoprovocadas no Brasil de 2010 a 2021. https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/boletins/epidemiologicos/edicoes/2024/boletim-epidemiologico-volume-55-no-04.pdf
- Centro de Valorização da Vida (CVV). https://cvv.org.br
Imagem de capa: Pedro Ventura / Agência Brasília, via Wikimedia Commons (CC BY 2.0)