Estima-se que 331 milhões de pessoas tenham consumido alguma droga ilícita em 2024 — 6,2% da população mundial entre 15 e 64 anos, ante 5,2% em 2014. O dado é do Relatório Mundial sobre Drogas 2026, publicado em 26 de junho pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC). No Brasil, o mais recente levantamento domiciliar nacional sobre o tema, o Lenad III, aponta tendência semelhante de expansão, com uma mudança preocupante de perfil entre adolescentes.
O retrato mundial
Segundo o UNODC, a cannabis segue sendo, de longe, a droga mais consumida, com 256 milhões de usuários em 2024. Em seguida aparecem os opioides (63 milhões), as anfetaminas (32 milhões), a cocaína (25 milhões) e o ecstasy (21 milhões).
O relatório destaca que o número de consumidores de cannabis cresceu 40% em uma década e que a prevalência passou de 3,8% para 4,8% da população de 15 a 64 anos entre 2014 e 2024. O UNODC associa esse movimento, “provavelmente em parte”, às mudanças de percepção sobre a droga, em um cenário em que várias jurisdições, sobretudo na América do Norte, adotaram políticas de legalização ou descriminalização.
Outros destaques do documento:
- Cocaína: a produção mais do que quadruplicou em dez anos e passou de 4.000 toneladas (em forma pura) em 2024. O UNODC alerta que a oferta pode em breve superar a demanda, e que grupos criminosos buscam novos mercados na África e na Ásia.
- Novas drogas sintéticas: em 2024, foram identificados nas apreensões cinco vezes mais tipos de drogas do que antes de 2000. O número de novas substâncias psicoativas relatadas chegou a 755, sendo 118 pela primeira vez.
- Opioides sintéticos: a proibição de drogas no Afeganistão, em 2022, reduziu fortemente a produção de ópio e heroína, e a oferta crescente de opioides sintéticos, como fentanilos e nitazenos, sugere uma possível transformação estrutural desse mercado.
- Metanfetamina: as apreensões cresceram em média 13% ao ano, e o mercado passou a ser global.
“Observamos um aumento sem precedentes no surgimento de novos tipos de drogas no mercado e, de forma preocupante, algumas delas são mais potentes e perigosas do que as anteriores”, afirmou a diretora executiva do UNODC, Monica Juma. Ela defendeu intensificar o combate ao crime organizado “ao mesmo tempo que investimos mais na prevenção e no tratamento”.
O que diz a pesquisa brasileira
No Brasil, o III Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III), conduzido pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em parceria com a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad/MJSP) e o instituto Ipsos, entrevistou 16.608 pessoas com 14 anos ou mais entre 2022 e 2023. O caderno sobre cannabis e outras drogas ilícitas foi divulgado em dezembro de 2025.
Os principais resultados, segundo a Unifesp:
- 18,7% da população (cerca de 32 milhões de pessoas) já usou ao menos uma droga ilícita na vida, aumento de 81% em relação a 2012;
- cerca de 28 milhões (15,8% dos adultos) já usaram cannabis; o índice dobrou em relação a 2012 e triplicou entre as mulheres (de 3% para 10,6%);
- mais de 10 milhões de brasileiros usaram cannabis nos últimos 12 meses;
- cerca de 2 milhões preenchem critérios para dependência de cannabis (1,2% da população);
- mais da metade dos usuários (54%) relatou uso diário por pelo menos duas semanas seguidas.
A inversão entre adolescentes
O dado que mais chamou a atenção dos pesquisadores diz respeito aos adolescentes de 14 a 17 anos. Cerca de 1 milhão já usou cannabis. Entre 2012 e 2023, o uso na vida caiu entre os meninos (de 7,3% para 4,6%) e triplicou entre as meninas (de 2,1% para 7,9%), que passaram a ter prevalência maior. No consumo recente, as meninas foram de 1,3% para 4,6%.
O levantamento também registra a chegada de canabinoides sintéticos, as chamadas “drogas K”, relatadas por 5,4% dos usuários de cannabis — e por 11,6% dos usuários adolescentes. Entre adolescentes usuários, 7,4% já precisaram de atendimento de emergência por causa do consumo.
“Os achados do Lenad apontam os grupos em maior risco quanto ao consumo problemático de drogas no país, ficando clara a necessidade de priorizarmos as meninas, em especial as mais jovens”, afirmou a pesquisadora Clarice Madruga, da Unifesp. Entre as recomendações do estudo estão programas de prevenção primária para adolescentes, especialmente meninas, e a manutenção da vigilância epidemiológica e toxicológica.
Análise: prevenção começa em casa e na comunidade
Este trecho é uma análise editorial, sob perspectiva cristã.
Os números mostram que o consumo de drogas está mais difundido do que há uma década e que a percepção de risco, sobretudo em relação à maconha, vem mudando. O próprio UNODC relaciona o aumento do uso a essa mudança de percepção. Para as famílias, isso significa que a conversa sobre drogas precisa começar cedo, com informação correta e sem tabus.
Onde comunidades de fé já atuam com dependentes químicos e suas famílias, os dados reforçam a importância de somar esse cuidado à prevenção — especialmente com adolescentes e meninas, grupo apontado pela Unifesp como prioritário —, oferecendo acolhimento, vínculos saudáveis e propósito. Dependência é uma questão de saúde que exige tratamento adequado; o apoio espiritual e comunitário pode caminhar junto com ele.
Fontes
- UNODC. “Relatório Mundial sobre Drogas 2026 do UNODC: mercados globais de drogas se transformam rapidamente…” (26/06/2026). https://www.unodc.org/unodc/pt/press/releases/2026/June/unodc-world-drug-report-2026_-global-drug-markets-transforming-rapidly-as-technology–novel-drug-types-and-instability-present-traffickers-with-new-opportunities.html
- UNODC. World Drug Report 2026 — Highlights. https://www.unodc.org/documents/data-and-analysis/WDR_2026/WDR26_Highlights.pdf
- Unifesp. “Unifesp divulga caderno temático do Lenad III sobre cannabis” (19/12/2025). https://portal.unifesp.br/destaques/caderno-tematico-lenad-iii-cannabis
- Lenad III. Caderno temático: Consumo de cannabis e outras substâncias psicoativas na população brasileira. https://lenad.uniad.org.br/cadernos-lenad/cannabis_SPA-exAT.pdf
- Folha de S.Paulo. “Consumo de cannabis entre meninas triplica em 10 anos” (19/12/2025). https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2025/12/consumo-de-cannabis-entre-meninas-triplica-em-10-anos-e-chega-a-79-diz-unifesp.shtml
Imagem de capa: U.S. Customs and Border Protection / Wikimedia Commons (domínio público)