A Bíblia não caiu pronta do céu em um único volume. Entender como seus livros foram reconhecidos ajuda o cristão a confiar nas Escrituras e a responder a perguntas comuns.
“Quem decidiu quais livros entrariam na Bíblia?” A pergunta aparece com frequência em conversas sobre fé, muitas vezes acompanhada da suspeita de que a escolha teria sido arbitrária. Para responder com honestidade, é preciso conhecer, ainda que em linhas gerais, a história do cânon bíblico.
O que significa “cânon”
A palavra vem do grego kanon, que designava uma vara de medir ou uma régua. Com o tempo, passou a significar padrão ou norma. Quando falamos do cânon bíblico, referimo-nos ao conjunto de livros reconhecidos pela igreja como Escritura inspirada, que serve de regra para a fé e a prática.
Um ponto importante: a igreja não “criou” a autoridade desses livros. Ela reconheceu uma autoridade que os textos já tinham, por sua origem e conteúdo.
O Antigo Testamento
Os livros do Antigo Testamento foram escritos ao longo de muitos séculos e preservados pelo povo de Israel. No tempo de Jesus, já existia um conjunto de escritos reconhecidos, mencionados em divisões como “a Lei e os Profetas” (Mateus 5:17) ou “a Lei de Moisés, os Profetas e os Salmos” (Lucas 24:44).
Jesus citou essas Escrituras com autoridade, afirmando que elas testemunhavam a seu respeito (João 5:39). Para os primeiros cristãos, o Antigo Testamento era a Bíblia que usavam na pregação e no ensino.
Vale lembrar que há diferenças entre tradições cristãs quanto a alguns livros do Antigo Testamento, chamados por protestantes de apócrifos e por católicos de deuterocanônicos. As Bíblias evangélicas seguem os livros reconhecidos no cânon hebraico.
O Novo Testamento
Os livros do Novo Testamento foram escritos no primeiro século, por apóstolos ou pessoas próximas a eles. Desde cedo, esses textos circularam entre as igrejas e foram lidos nas reuniões. O próprio Pedro se refere às cartas de Paulo ao lado das “demais Escrituras” (2 Pedro 3:15-16), e Paulo pede que suas cartas sejam lidas em outras comunidades (Colossenses 4:16).
Nos séculos seguintes, as igrejas foram consolidando o reconhecimento dos 27 livros do Novo Testamento. Os quatro Evangelhos e as cartas de Paulo foram aceitos muito cedo; alguns poucos livros levaram mais tempo para ser reconhecidos de forma ampla.
Que critérios a igreja antiga observou
Historiadores costumam apontar alguns critérios que orientaram esse reconhecimento:
- Apostolicidade: o livro tinha ligação com os apóstolos, seja por autoria direta, seja por pessoas próximas a eles.
- Ortodoxia: o conteúdo estava de acordo com a fé transmitida pelos apóstolos.
- Uso amplo: o texto era lido e reconhecido por igrejas em diferentes regiões, e não apenas em um grupo isolado.
- Antiguidade: o livro vinha do período apostólico, e não de séculos depois.
Esses critérios ajudam a entender por que textos escritos muito tempo depois, com ensinos estranhos à fé apostólica, não foram aceitos como Escritura.
E a preservação do texto?
Outra pergunta comum é se o texto que temos hoje corresponde ao original. Os autógrafos, isto é, os manuscritos escritos pelos próprios autores, não foram preservados. O que temos são cópias. O Novo Testamento, porém, conta com um grande número de manuscritos antigos em grego e traduções antigas, o que permite aos estudiosos comparar as cópias e reconstruir o texto com alto grau de confiança. As diferenças entre manuscritos, em sua grande maioria, são pequenas e não alteram doutrinas centrais.
Como conversar sobre isso
- Reconheça a pergunta como legítima. É uma questão histórica séria, que merece resposta séria.
- Evite exageros. Não é preciso afirmar que tudo foi decidido de forma simples ou instantânea.
- Mostre o fio da história. O reconhecimento dos livros foi um processo de séculos, envolvendo muitas comunidades, e não a decisão de uma única pessoa.
- Aponte para o conteúdo. No fim, a melhor defesa da Bíblia é lê-la e conhecer o Cristo que ela revela.
Uma Palavra que permanece
Paulo afirma que toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, a repreensão, a correção e a instrução na justiça (2 Timóteo 3:16). Conhecer a história do cânon não diminui essa confiança; ao contrário, mostra o cuidado com que a igreja recebeu e guardou a Palavra.
Jesus disse que o céu e a terra passariam, mas suas palavras jamais passariam (Mateus 24:35). A história da Bíblia é, em grande medida, a história dessa promessa sendo cumprida.
Citações bíblicas: Nova Versão Internacional (NVI).
Imagem de capa: PotatoCow25 / Wikimedia Commons (CC0 1.0)