Oito em cada dez famílias brasileiras têm dívidas. Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio (CNC), 82% das famílias estavam endividadas em agosto de 2026 — o sétimo recorde mensal seguido —, e 29,9% tinham contas em atraso. A Serasa contabilizou 83,9 milhões de pessoas inadimplentes em julho, e o Banco Central registrou em 2026 o maior nível de endividamento das famílias em relação à renda desde o início da série, em 2005. Quando a dívida entra em casa, ela não pesa só no bolso: afeta a conversa, a confiança e a paz do casal. Os números ajudam a entender o tamanho do problema; a saída, porém, passa por decisões tomadas a dois.
O retrato do endividamento em 2026
Na Peic, estar endividado não significa necessariamente estar com contas atrasadas: a pesquisa separa quem tem dívidas de quem está inadimplente. Os dados de agosto de 2026, divulgados pela CNC em 10 de setembro, mostram:
- 82% das famílias endividadas;
- 29,9% com contas ou dívidas em atraso;
- 12,5% dizendo que não terão condições de pagar as contas atrasadas;
- atraso médio de cerca de 65 dias.
Na edição anterior, referente a julho, a CNC informou que as famílias comprometiam em média 29,5% da renda com dívidas e que o cartão de crédito era a principal modalidade, presente em mais de 85% dos lares endividados, seguido pelos carnês (16,1%) e pelo crédito pessoal (13%), segundo a Agência Brasil.
O peso é maior para quem ganha menos. Em agosto, entre as famílias com renda de até três salários mínimos, 85,1% estavam endividadas, 38,8% tinham contas em atraso e 18,3% diziam não ter como pagar. Na faixa acima de dez salários mínimos, os índices eram de 72,3% de endividados e 14,9% de inadimplentes.
Serasa e Banco Central: dívidas em nível recorde
Segundo a Serasa, o Brasil tinha em julho de 2026 83,9 milhões de pessoas inadimplentes, com 348,3 milhões de dívidas que somavam R$ 586,4 bilhões. Pesquisa da empresa feita com o Opinion Box entre junho e julho indica que 50% dos consumidores gastaram mais do que o planejado no primeiro semestre, mas também que há disposição para mudar: 49% pretendiam quitar dívidas no segundo semestre, 69% queriam economizar mais e 29% planejavam formar uma reserva de emergência.
No Banco Central, o indicador de endividamento das famílias chegou a 49,9% da renda acumulada em 12 meses em fevereiro de 2026, o maior da série iniciada em 2005, segundo o Poder360. O comprometimento da renda com o pagamento de dívidas atingiu 29,3% em janeiro, também recorde. Na prática, quase um terço do que entra no orçamento já sai para pagar parcelas e juros.
O custo do crédito explica parte da armadilha. Levantamento publicado pela Agência Senado em maio de 2026 apontou juros do cartão de crédito rotativo acima de 400% ao ano, enquanto a taxa básica, a Selic, estava em torno de 14,5% a 14,75%.
Quando a dívida chega ao casamento
Dinheiro raramente é só dinheiro dentro de casa. Dívidas escondidas, compras por impulso, visões diferentes sobre gastar e poupar e a sensação de que só um dos dois “carrega” o orçamento são fontes comuns de desgaste. O problema costuma piorar quando o assunto vira tabu: cada um tenta resolver sozinho, novas dívidas cobrem as antigas e a conversa só acontece na hora da crise.
A Bíblia trata o tema com realismo. Provérbios 22.7 lembra que “o que toma emprestado é servo do que empresta”, e Romanos 13.8 orienta: “a ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor com que vos ameis uns aos outros”. Ao mesmo tempo, Eclesiastes 4.9 afirma que “melhor é serem dois do que um” — e isso vale também para enfrentar as contas.
Caminhos práticos para o casal
- Coloquem tudo na mesa. Façam juntos uma lista de todas as dívidas: credor, valor total, parcela, juros e atraso. Sem culpados; o objetivo é enxergar o problema inteiro.
- Montem um orçamento comum. Anotem toda a renda do casal e todos os gastos do mês, inclusive os pequenos. É ali que costumam aparecer os vazamentos.
- Priorizem as dívidas mais caras. Cartão rotativo e cheque especial têm os juros mais altos; trocá-los por uma modalidade mais barata, como um crédito com parcelas fixas e juros menores, pode reduzir muito o custo total.
- Protejam o essencial. Moradia, alimentação, água, luz e transporte vêm antes de qualquer nova compra.
- Negociem. Procurem os credores e as plataformas oficiais de renegociação, comparem propostas e só aceitem parcelas que caibam de verdade no orçamento. Desconfiem de intermediários que cobram adiantado para “limpar o nome”.
- Cortem o crédito fácil por um tempo. Reduzir limites e evitar parcelamentos novos impede que a dívida volte a crescer enquanto vocês pagam a antiga.
- Criem uma reserva, mesmo pequena. Um valor guardado todo mês evita recorrer ao cartão a cada imprevisto.
- Marquem uma conversa mensal. Uma reunião curta, com calma e oração, para revisar o orçamento e celebrar cada dívida quitada.
Quando a dívida fica impagável
Para quem não consegue mais pagar sem comprometer o básico, existe a Lei do Superendividamento (Lei nº 14.181, de 1º de julho de 2021), que alterou o Código de Defesa do Consumidor. Ela define o superendividamento como a “impossibilidade manifesta de o consumidor pessoa natural, de boa-fé, pagar a totalidade de suas dívidas de consumo, exigíveis e vincendas, sem comprometer seu mínimo existencial”.
Nesses casos, o consumidor pode pedir um processo de repactuação de dívidas, com audiência de conciliação presidida por juiz ou conciliador credenciado e a presença de todos os credores, para montar um plano de pagamento com prazo máximo de cinco anos, preservado o mínimo existencial. A lei também prevê a conciliação pelos órgãos públicos de defesa do consumidor, como os Procons. Procurar a Defensoria Pública ou o Procon da cidade é um bom primeiro passo.
O papel da igreja
Com 82% das famílias endividadas, é provável que boa parte dos casais de qualquer congregação esteja lidando com dívidas — muitas vezes em silêncio, por vergonha. As igrejas podem ajudar com cursos de educação financeira, acompanhamento de casais por voluntários com experiência em orçamento, e um ambiente em que falar de dinheiro não seja motivo de julgamento. Lucas 14.28 fala em sentar e calcular o custo antes de construir: planejar é também um ato de fé e de responsabilidade.
Sair das dívidas leva tempo. Mas o casal que decide encarar o problema junto, com transparência e metas realistas, já deu o passo mais importante.
Fontes
- Portal do Comércio (CNC) — Mais endividadas do que a média, famílias de menor renda lideram avanço na inadimplência em agosto (10/09/2026). https://portaldocomercio.org.br/acoes-institucionais/cnc-mais-endividadas-do-que-a-media-familias-de-menor-renda-lideram-avanco-na-inadimplencia-em-agosto/
- Agência Brasil — CNC: endividamento das famílias sobe para 82%, mas inadimplência cai (08/2026). https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-08/cnc-endividamento-das-familias-sobe-para-82-mas-inadimplencia-cai
- Serasa — Inadimplência atinge 83,9 milhões de pessoas e quitar dívidas é prioridade para brasileiros no segundo semestre (08/2026). https://www.serasa.com.br/imprensa/inadimplencia-segundo-semestre-serasa/
- Poder360 — Endividamento das famílias atinge máxima histórica, diz BC (27/04/2026). https://www.poder360.com.br/poder-economia/endividamento-das-familias-atinge-maxima-historica-diz-bc/
- Agência Senado — Dívidas em recorde assombram as famílias brasileiras (05/2026). https://www12.senado.leg.br/noticias/infomaterias/2026/05/dividas-em-recorde-assombram-as-familias-brasileiras
- Presidência da República — Lei nº 14.181, de 1º de julho de 2021 (Lei do Superendividamento). https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2021/lei/l14181.htm
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