Maconha escondida dentro de uma roda de carro, apreendida por agentes de fronteira dos Estados Unidos em El Paso, Texas
Imagem: U.S. Customs and Border Protection / Wikimedia Commons (domínio público)

Estima-se que 331 milhões de pessoas tenham consumido alguma droga ilícita em 2024 — 6,2% da população mundial entre 15 e 64 anos, ante 5,2% em 2014. O dado é do Relatório Mundial sobre Drogas 2026, publicado em 26 de junho pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC). No Brasil, o mais recente levantamento domiciliar nacional sobre o tema, o Lenad III, aponta tendência semelhante de expansão, com uma mudança preocupante de perfil entre adolescentes.

O retrato mundial

Segundo o UNODC, a cannabis segue sendo, de longe, a droga mais consumida, com 256 milhões de usuários em 2024. Em seguida aparecem os opioides (63 milhões), as anfetaminas (32 milhões), a cocaína (25 milhões) e o ecstasy (21 milhões).

O relatório destaca que o número de consumidores de cannabis cresceu 40% em uma década e que a prevalência passou de 3,8% para 4,8% da população de 15 a 64 anos entre 2014 e 2024. O UNODC associa esse movimento, “provavelmente em parte”, às mudanças de percepção sobre a droga, em um cenário em que várias jurisdições, sobretudo na América do Norte, adotaram políticas de legalização ou descriminalização.

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Outros destaques do documento:

  • Cocaína: a produção mais do que quadruplicou em dez anos e passou de 4.000 toneladas (em forma pura) em 2024. O UNODC alerta que a oferta pode em breve superar a demanda, e que grupos criminosos buscam novos mercados na África e na Ásia.
  • Novas drogas sintéticas: em 2024, foram identificados nas apreensões cinco vezes mais tipos de drogas do que antes de 2000. O número de novas substâncias psicoativas relatadas chegou a 755, sendo 118 pela primeira vez.
  • Opioides sintéticos: a proibição de drogas no Afeganistão, em 2022, reduziu fortemente a produção de ópio e heroína, e a oferta crescente de opioides sintéticos, como fentanilos e nitazenos, sugere uma possível transformação estrutural desse mercado.
  • Metanfetamina: as apreensões cresceram em média 13% ao ano, e o mercado passou a ser global.

“Observamos um aumento sem precedentes no surgimento de novos tipos de drogas no mercado e, de forma preocupante, algumas delas são mais potentes e perigosas do que as anteriores”, afirmou a diretora executiva do UNODC, Monica Juma. Ela defendeu intensificar o combate ao crime organizado “ao mesmo tempo que investimos mais na prevenção e no tratamento”.

O que diz a pesquisa brasileira

No Brasil, o III Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III), conduzido pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em parceria com a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad/MJSP) e o instituto Ipsos, entrevistou 16.608 pessoas com 14 anos ou mais entre 2022 e 2023. O caderno sobre cannabis e outras drogas ilícitas foi divulgado em dezembro de 2025.

Os principais resultados, segundo a Unifesp:

  • 18,7% da população (cerca de 32 milhões de pessoas) já usou ao menos uma droga ilícita na vida, aumento de 81% em relação a 2012;
  • cerca de 28 milhões (15,8% dos adultos) já usaram cannabis; o índice dobrou em relação a 2012 e triplicou entre as mulheres (de 3% para 10,6%);
  • mais de 10 milhões de brasileiros usaram cannabis nos últimos 12 meses;
  • cerca de 2 milhões preenchem critérios para dependência de cannabis (1,2% da população);
  • mais da metade dos usuários (54%) relatou uso diário por pelo menos duas semanas seguidas.

A inversão entre adolescentes

O dado que mais chamou a atenção dos pesquisadores diz respeito aos adolescentes de 14 a 17 anos. Cerca de 1 milhão já usou cannabis. Entre 2012 e 2023, o uso na vida caiu entre os meninos (de 7,3% para 4,6%) e triplicou entre as meninas (de 2,1% para 7,9%), que passaram a ter prevalência maior. No consumo recente, as meninas foram de 1,3% para 4,6%.

O levantamento também registra a chegada de canabinoides sintéticos, as chamadas “drogas K”, relatadas por 5,4% dos usuários de cannabis — e por 11,6% dos usuários adolescentes. Entre adolescentes usuários, 7,4% já precisaram de atendimento de emergência por causa do consumo.

“Os achados do Lenad apontam os grupos em maior risco quanto ao consumo problemático de drogas no país, ficando clara a necessidade de priorizarmos as meninas, em especial as mais jovens”, afirmou a pesquisadora Clarice Madruga, da Unifesp. Entre as recomendações do estudo estão programas de prevenção primária para adolescentes, especialmente meninas, e a manutenção da vigilância epidemiológica e toxicológica.

Análise: prevenção começa em casa e na comunidade

Este trecho é uma análise editorial, sob perspectiva cristã.

Os números mostram que o consumo de drogas está mais difundido do que há uma década e que a percepção de risco, sobretudo em relação à maconha, vem mudando. O próprio UNODC relaciona o aumento do uso a essa mudança de percepção. Para as famílias, isso significa que a conversa sobre drogas precisa começar cedo, com informação correta e sem tabus.

Onde comunidades de fé já atuam com dependentes químicos e suas famílias, os dados reforçam a importância de somar esse cuidado à prevenção — especialmente com adolescentes e meninas, grupo apontado pela Unifesp como prioritário —, oferecendo acolhimento, vínculos saudáveis e propósito. Dependência é uma questão de saúde que exige tratamento adequado; o apoio espiritual e comunitário pode caminhar junto com ele.

Fontes

Imagem de capa: U.S. Customs and Border Protection / Wikimedia Commons (domínio público)

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