Os registros policiais de maus-tratos contra crianças e adolescentes chegaram a 38.986 em 2025, alta de 106,1% em relação a 2021, segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado em julho de 2026 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). No mesmo ano, das 84.388 vítimas de estupro registradas no país, 64.990 foram de estupro de vulnerável, crime que envolve menores de 14 anos ou pessoas sem condição de consentir. E o Disque 100, canal do governo federal para denúncias de violações de direitos humanos, recebeu mais de 32 mil registros de violações sexuais contra crianças e adolescentes apenas entre janeiro e abril de 2026. Às vésperas do Dia das Crianças e ao longo de todo o ano, os números pedem atenção das famílias, das escolas e das igrejas.
O que mostra o Anuário 2026
A edição de 2026 do Anuário, com dados de 2025 enviados pelas secretarias estaduais de segurança, ampliou o espaço dedicado aos crimes contra crianças e adolescentes. Segundo reportagens que repercutiram o documento, os principais números são:
- Maus-tratos: 38.986 registros, crescimento de 106,1% entre 2021 e 2025;
- Lesão corporal dolosa em contexto de violência doméstica: 21.811 registros, aumento de 5,5% em relação a 2024;
- Abandono de incapaz: 14.815 ocorrências, alta de 18,5%;
- Subtração de crianças e adolescentes: 1.866 casos, alta de 33,7%;
- Bullying: 4.549 registros, com 48% das vítimas entre 10 e 13 anos;
- Cyberbullying: 677 ocorrências, crescimento de 61,4% em relação a 2024.
É importante ler esses números com cuidado: o aumento de registros pode refletir tanto mais violência quanto mais denúncias e melhor notificação. Em qualquer caso, cada ocorrência representa uma criança que precisou de proteção.
Violência sexual: a maioria das vítimas é vulnerável
O Anuário contabilizou 84.388 vítimas de estupro e estupro de vulnerável em 2025 — o equivalente a 231 casos por dia, ou um boletim de ocorrência a cada seis minutos. Desse total, 76,6% (64.990 registros) foram registros de estupro de vulnerável. O número total é menor que o de 2024 (88.843), mas o próprio Anuário alerta que a polícia capta apenas cerca de 10% das ocorrências, o que indica enorme subnotificação. No mesmo período, as notificações no sistema de saúde cresceram 2,4%.
O documento também trouxe dados sobre produção, posse e compartilhamento de material de abuso sexual infantil. Foram 4.063 vítimas em 2025. Entre as que tinham idade identificada, 84,2% eram meninas e 78,3% eram adolescentes de 12 a 17 anos. Um dado chama a atenção: em 34,2% dos casos, os autores eram também adolescentes, e 86,5% dos autores identificados eram homens. O ambiente digital, portanto, exige tanta vigilância quanto a rua — tema que tratamos em ECA Digital: seis meses depois, o que mudou para as famílias.
O que mostram as denúncias ao Disque 100
O Disque 100, mantido pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), registrou mais de 32 mil violações sexuais contra crianças e adolescentes de janeiro a abril de 2026, aumento de quase 50% em relação ao mesmo período de 2025, conforme divulgado em 18 de maio, Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual Infantil. Nesse período, quase 7.500 denúncias apontavam a casa como local da violência, e mais de 600 envolviam a internet.
O canal ganhou força também pelo WhatsApp: só no primeiro trimestre de 2026 foram quase 37 mil denúncias recebidas por esse meio, segundo a Radioagência Nacional. Vale lembrar que uma denúncia pode conter mais de uma violação, por isso os números de denúncias e de violações não são iguais.
Como proteger as crianças
Os dados reforçam o que especialistas repetem há anos: grande parte da violência acontece em ambientes que deveriam ser seguros, como a própria casa. Proteger exige presença e informação. Algumas atitudes práticas:
- Conversar sobre o corpo desde cedo, com linguagem adequada à idade: ensinar os nomes corretos das partes do corpo, que ninguém pode tocá-las ou fotografá-las e que segredos que causam medo devem ser contados a um adulto de confiança.
- Acreditar e acolher. Se a criança relatar algo, ouça com calma, não culpe, não confronte o suspeito na frente dela e procure os canais de denúncia.
- Observar mudanças de comportamento: medo repentino de uma pessoa ou lugar, regressões (como voltar a urinar na cama), isolamento, agressividade ou queda no desempenho escolar podem indicar que algo não vai bem.
- Acompanhar a vida digital: saber com quem os filhos conversam, usar controle parental e explicar que ninguém deve pedir fotos ou encontros em segredo.
- Disciplinar sem violência. Corrigir é dever dos pais; agredir e humilhar, não. A Bíblia manda que os pais não provoquem os filhos à ira, mas os criem na disciplina e admoestação do Senhor (Efésios 6.4).
- Igrejas e escolas protegidas: ministérios infantis devem ter regras claras, como nunca deixar uma criança sozinha com um único adulto, checagem de voluntários e protocolo para lidar com suspeitas.
Onde denunciar
Diante de suspeita ou confirmação de violência, não é preciso ter provas para denunciar — a apuração cabe às autoridades. Os principais canais são:
- Disque 100 (Disque Direitos Humanos): funciona 24 horas por dia, sete dias por semana, por ligação para o número 100, pelo WhatsApp (61) 99611-0100, pelo Telegram e pelo site da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos;
- Conselho Tutelar do município;
- Delegacias, especialmente as especializadas, e a Polícia Militar pelo 190 em caso de emergência;
- Ministério Público.
Para facilitar o acesso, o Movimento Violência Sexual Zero lançou em setembro de 2026, com parceiros como a Childhood Brasil, o Mapa Nacional dos Conselhos Tutelares, no site violenciasexualzero.com.br, com contatos dos conselhos e orientações sobre como denunciar, incluindo a SaferNet para casos de abuso on-line.
Jesus disse: “Deixai vir a mim os pequeninos” (Marcos 10.14). Proteger as crianças é parte concreta da fé cristã. Para entender o cenário mais amplo da violência doméstica no país, leia também nossa matéria sobre o recorde de feminicídios no Anuário de Segurança Pública 2026.
Fontes
- POA24horas — Anuário da Segurança Pública aponta aumento da violência contra crianças e adolescentes no Brasil (23 jul. 2026). https://poa24horas.com.br/porto-alegre/2026/07/anuario-da-seguranca-publica-aponta-aumento-da-violencia-contra-criancas-e-adolescentes-no-brasil/
- Brasil 247 — Registros de estupro caem 5,4% no Brasil em 2025, mas alta na saúde acende alerta para subnotificação (23 jul. 2026). https://www.brasil247.com/brasil/registros-de-estupro-caem-54-no-brasil-em-2025-mas-alta-na-saude-acende-alerta-para-subnotificacao
- Assembleia Legislativa de Goiás — Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026 inova ao incluir dados sobre crimes cometidos contra crianças e adolescentes (31 jul. 2026). https://portal.al.go.leg.br/noticias/166721/anuario-brasileiro-de-seguranca-publica-de-2026-inova-ao-incluir-dados-sobre-crimes-cometidos-contra-criancas-e-adolescentes
- Página de Polícia — Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 (30 jul. 2026). https://www.paginadepolicia.com.br/noticia/118877/anuario-brasileiro-de-seguranca-publica-2026
- Radioagência Nacional (EBC) — Disque 100 registra mais de 32 mil violações sexuais contra crianças (18 maio 2026). https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/geral/audio/2026-05/disque-100-registra-mais-de-32-mil-violacoes-sexuais-contra-criancas
- Radioagência Nacional (EBC) — Ano já tem quase 37 mil denúncias feitas pelo Disque 100 no WhatsApp (6 abr. 2026). https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/direitos-humanos/audio/2026-04/ano-ja-tem-quase-37-mil-denuncias-feitas-pelo-disque-100-no-whatsapp
- Radioagência Nacional (EBC) — Site promete facilitar denúncia de violência sexual contra crianças (6 set. 2026). https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/seguranca/audio/2026-09/site-promete-facilitar-denuncia-de-violencia-sexual-contra-criancas
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