Pessoa em momento de reflexão, tema saúde mental

Neste 10 de outubro, Dia Mundial da Saúde Mental, um dado brasileiro recente merece a atenção de pais, mães, avós e líderes de igreja: segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, divulgada pelo IBGE em março de 2026, três em cada dez estudantes de 13 a 17 anos dizem se sentir tristes sempre ou na maioria das vezes, e 42,9% afirmam ficar irritados, nervosos ou mal-humorados por qualquer coisa. No mundo, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que um em cada sete jovens de 10 a 19 anos convive com algum transtorno mental, e a ansiedade está entre os mais comuns. A boa notícia é que a família continua sendo um dos principais fatores de proteção.

O que diz a OMS sobre a saúde mental dos adolescentes

De acordo com a ficha informativa da OMS sobre saúde mental de adolescentes, atualizada em 1º de setembro de 2025, os transtornos mentais respondem por 15% da carga global de doenças na faixa de 10 a 19 anos. Muitos desses quadros, alerta a organização, continuam sem ser reconhecidos nem tratados.

A ansiedade aparece com destaque. Segundo a OMS:

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  • 4,1% dos adolescentes de 10 a 14 anos e 5,3% dos de 15 a 19 anos têm um transtorno de ansiedade;
  • a depressão atinge cerca de 1,3% dos adolescentes de 10 a 14 anos e 3,4% dos de 15 a 19 anos;
  • o suicídio é a terceira principal causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos.

Os números mostram que os transtornos de ansiedade são mais frequentes entre os adolescentes mais velhos, justamente na fase das grandes escolhas escolares, das mudanças no corpo e da pressão do grupo. Em 2026, a OMS propôs para o Dia Mundial da Saúde Mental o tema “Experiências vividas ouvidas: vozes reais, mudança real” — um convite a escutar quem passa pelo sofrimento, o que dentro de casa começa por ouvir os filhos.

O retrato brasileiro: tristeza, irritação e sensação de abandono

A PeNSE 2024 ouviu 118.099 estudantes em 4.167 escolas públicas e privadas de todo o país, conforme reportagem da Agência Brasil de 25 de março de 2026. Além da tristeza frequente e da irritabilidade, o levantamento mostrou que:

  • 26,1% dos estudantes sentem que ninguém se preocupa com eles;
  • 18,5% pensam que a vida não vale a pena ser vivida;
  • menos da metade recebeu apoio psicológico na escola (45,8% na rede pública e 58,2% na privada), e só 34,1% tiveram acesso a profissionais de saúde mental.

A diferença entre meninas e meninos chama a atenção. Entre elas, 41% relatam tristeza frequente, contra 16,7% entre eles; a irritabilidade atinge 58,1% das meninas e 27,6% dos meninos; e 25% das meninas pensam que a vida não vale a pena, contra 12% dos meninos. A pesquisa também registrou que 43,4% das meninas e 20,5% dos meninos já tiveram vontade de se machucar de propósito. Outro dado toca diretamente a vida familiar: 39,7% das meninas e 33,5% dos meninos disseram sentir que os pais não os entendem.

Preocupação normal ou sinal de alerta?

Sentir medo antes de uma prova ou nervosismo diante de uma apresentação faz parte da vida. O que preocupa é quando a aflição se torna constante, desproporcional e começa a atrapalhar o dia a dia. Alguns sinais que merecem atenção dos pais, especialmente quando duram semanas:

  • mudanças importantes no sono ou no apetite;
  • isolamento dos amigos, da família e de atividades de que antes gostava;
  • irritação intensa e explosões desproporcionais;
  • queixas físicas frequentes, como dor de cabeça ou de barriga, sem causa aparente;
  • queda no rendimento escolar ou recusa em ir à escola;
  • preocupação excessiva, dificuldade de concentração e necessidade constante de ser tranquilizado;
  • frases de desesperança, como “nada vai dar certo” ou “ninguém liga para mim”.

Nenhum desses sinais, isoladamente, é um diagnóstico — que cabe a profissionais de saúde. Mas eles indicam que é hora de conversar e, se necessário, buscar avaliação. Qualquer fala sobre não querer viver deve ser levada a sério, sempre.

Como a família pode ajudar

A OMS lista entre os fatores de proteção dos adolescentes o sono saudável, a atividade física regular, o desenvolvimento de habilidades para lidar com problemas e com outras pessoas e, sobretudo, “ambientes protetores e de apoio na família, na escola e na comunidade”. Entre os fatores de risco, a organização cita exposição à violência, bullying, criação excessivamente dura, dificuldades socioeconômicas e pressão dos colegas. Na prática, isso se traduz em atitudes simples:

  • Ouvir antes de corrigir. Perguntar “como você está de verdade?” e aguentar o silêncio sem sermão imediato. Minimizar (“isso é bobagem”) costuma fechar a porta.
  • Cuidar da rotina. Horário para dormir, refeições em família, atividade física e limites claros para as telas ajudam o corpo e a mente. Veja também nosso guia sobre como conversar em família sobre o uso de telas.
  • Evitar a humilhação. Disciplina é necessária, mas gritos, comparações e castigos humilhantes aumentam o sofrimento.
  • Estar atento ao bullying e manter diálogo com a escola.
  • Buscar ajuda profissional sem culpa. Procurar psicólogo ou médico não é falta de fé nem fracasso dos pais; é cuidado.

A comunidade de fé também tem papel importante. A Bíblia não esconde a angústia de seus personagens — os Salmos estão cheios dela — e lembra que Deus “sara os quebrantados de coração” (Salmo 147.3). Grupos de adolescentes, líderes e conselheiros podem ser uma rede de acolhimento, desde que ouçam sem julgar e saibam encaminhar para atendimento especializado quando necessário.

Onde buscar ajuda

No Sistema Único de Saúde (SUS), o cuidado em saúde mental é organizado pela Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). A porta de entrada mais comum é a Unidade Básica de Saúde (UBS) do bairro. Segundo o Ministério da Saúde, a rede conta com os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), incluindo o CAPSi, voltado a crianças e adolescentes, e o atendimento pode começar por procura direta ou por encaminhamento de outros serviços. Em situação de crise, a pessoa pode ser atendida em qualquer ponto da rede.

Para conversar com alguém a qualquer hora, o CVV – Centro de Valorização da Vida atende gratuitamente, 24 horas por dia, pelo telefone 188, e também por chat e e-mail em cvv.org.br. Fundado em 1962, o CVV é formado exclusivamente por voluntários e oferece apoio emocional e prevenção do suicídio com sigilo. Em caso de risco imediato, procure um serviço de urgência.

No mês passado, publicamos um panorama sobre prevenção do suicídio no Brasil: leia Setembro Amarelo: os dados de suicídios em 2025 e como prevenir. O cuidado com a saúde emocional dos filhos não pode ficar restrito a um mês do calendário: começa em casa, todos os dias, com presença e escuta.

Fontes

Imagem de capa: Unsplash (Unsplash License)

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