Poucos textos bíblicos são tão citados em época de eleição quanto Romanos 13.1-7. Ele é usado para defender governos e para criticá-los, muitas vezes arrancado do seu contexto. Nesta semana, em que eleitores de vários estados e do país podem voltar às urnas no segundo turno, marcado pelo Tribunal Superior Eleitoral para 25 de outubro de 2026 onde for necessário, vale estudar o texto com calma: o que Paulo disse, a quem disse, em que circunstâncias, e quais são os limites que a própria Escritura estabelece para a obediência às autoridades.
Contexto: uma igreja pequena no coração do império
Paulo escreveu aos cristãos de Roma antes de conhecê-los pessoalmente. Ele menciona o desejo de visitá-los (Romanos 1.10-13) e o plano de passar por Roma a caminho da Espanha (15.23-24). A carta costuma ser datada de meados da década de 50 do primeiro século, quando o apóstolo se preparava para levar a Jerusalém a oferta das igrejas (15.25-26).
Os destinatários formavam uma comunidade minoritária na capital do maior império da época. Não tinham representação política, não votavam e não escolhiam seus governantes. Alguns anos antes, segundo Atos 18.2, o imperador Cláudio havia ordenado que todos os judeus saíssem de Roma, e foi assim que Áquila e Priscila chegaram a Corinto. Os cristãos sabiam, portanto, que o poder imperial podia afetar diretamente suas vidas.
Também é importante notar onde o texto está. Romanos 12 termina com instruções sobre não pagar mal com mal, viver em paz com todos e vencer o mal com o bem (12.17-21). Logo depois de Romanos 13.1-7, Paulo volta ao tema do amor: “A ninguém fiqueis devendo coisa alguma, exceto o amor” (13.8). O ensino sobre as autoridades está dentro de uma seção sobre a vida cristã marcada pelo amor e pela paz.
Leitura do texto: o que Paulo afirma
Em sete versículos, Paulo desenvolve algumas ideias centrais:
- A autoridade tem origem em Deus (v. 1-2). “Não há autoridade que não proceda de Deus.” Paulo não está dizendo que todo governante é bom ou que Deus aprova tudo o que ele faz, mas que a existência de ordem e governo faz parte do cuidado de Deus com a sociedade humana.
- A autoridade tem uma função (v. 3-4). Ela existe para louvar o bem e reprimir o mal. Paulo chama o governante de “ministro de Deus para o teu bem” (v. 4). A palavra “ministro” indica serviço: o poder é um encargo, não um privilégio.
- A submissão é também questão de consciência (v. 5). O cristão não obedece às leis justas apenas por medo de punição, mas porque reconhece a ordem que Deus estabeleceu.
- Os deveres são concretos (v. 6-7). Pagar tributos e impostos, dar respeito e honra a quem são devidos. Paulo ecoa o ensino de Jesus em Mateus 22.21.
Pedro segue a mesma linha em 1 Pedro 2.13-17, ao pedir submissão às instituições humanas “por causa do Senhor”, e Paulo repete a orientação a Tito (Tito 3.1). Trata-se de um ensino consistente do Novo Testamento: cristãos devem ser bons cidadãos.
Os limites da obediência: Atos 5.29
Seria um erro ler Romanos 13 como se a obediência ao governo fosse absoluta. A própria Bíblia mostra que não é. Quando o Sinédrio proibiu os apóstolos de ensinar em nome de Jesus, Pedro e os outros responderam: “Antes, importa obedecer a Deus do que aos homens” (Atos 5.29; veja também 4.19-20).
O Antigo Testamento traz exemplos semelhantes. As parteiras hebreias se recusaram a matar os meninos recém-nascidos, contrariando a ordem do faraó (Êxodo 1.17). Sadraque, Mesaque e Abede-Nego não se prostraram diante da estátua do rei (Daniel 3). Daniel continuou orando mesmo depois de um decreto que o proibia (Daniel 6.10). Em todos esses casos, os servos de Deus desobedeceram a uma ordem específica que os obrigava a pecar, mas não pegaram em armas nem buscaram a violência, e aceitaram as consequências.
O próprio Paulo, autor de Romanos 13, não era passivo diante de abusos. Em Atos 16.37, recusou-se a sair discretamente da prisão em Filipos depois de ter sido açoitado sem julgamento. Em Atos 22.25, invocou a cidadania romana para questionar o açoite. Em Atos 25.11, apelou a César. Submissão, para ele, não era silêncio diante da injustiça, mas respeito à ordem legítima, inclusive usando os recursos legais disponíveis.
A chave está no versículo 4: a autoridade é “ministro de Deus para o teu bem”. Ela é serva, não senhora. Quando ordena o que Deus proíbe ou proíbe o que Deus ordena, ultrapassa o limite do seu mandato, e a consciência cristã se submete primeiro a Deus.
O que o texto não diz
Para evitar leituras distorcidas, vale registrar o que Romanos 13 não ensina:
- Não ensina que determinado governante ou partido é escolhido por Deus e, por isso, está acima de críticas. O texto fala da instituição da autoridade, não de pessoas específicas.
- Não autoriza o cristão a desprezar autoridades das quais discorda. Honra e respeito são devidos mesmo quando não votamos em quem governa.
- Não transforma o Estado em fonte de salvação. O mesmo Paulo afirma que a nossa cidadania está nos céus (Filipenses 3.20).
- Não é um texto sobre eleições. Os cristãos de Roma não votavam. Aplicá-lo à democracia exige cuidado e humildade.
Aplicação equilibrada em semana de segundo turno
Hoje, no Brasil, a situação é diferente da dos cristãos de Roma: o cidadão participa da escolha de quem vai governar. Isso amplia a responsabilidade. Algumas aplicações possíveis:
- Vote como quem presta contas a Deus. Onde houver segundo turno, informe-se, ore e decida com consciência, pensando no bem comum.
- Respeite o processo e o resultado. A submissão de Romanos 13 inclui acatar regras legítimas, mesmo quando o resultado não é o que desejávamos.
- Ore pelos eleitos, sejam quem forem. Paulo pede orações “por todos os que exercem autoridade” (1 Timóteo 2.1-2), sem condicionar isso à preferência política.
- Honre sem idolatrar. Tratar autoridades com respeito não significa colocá-las acima de críticas nem depositar nelas a esperança que pertence a Cristo.
- Fiscalize e participe. Usar os meios legais para cobrar, questionar e propor, como Paulo fez em Atos 22 e 25, é compatível com Romanos 13.
- Guarde a comunhão. Irmãos em Cristo podem votar de forma diferente. A lealdade ao Reino de Deus é maior que qualquer divergência eleitoral.
Para aprofundar o tema da relação entre fé e cidadania, leia também a pregação “Dai a César o que é de César” (Mateus 22.15-22), publicada no primeiro turno, e, para estudar em casa, confira como começar um estudo bíblico em família.
Para refletir
- Por que é importante ler Romanos 13.1-7 junto com Romanos 12.17-21 e 13.8-10?
- Como Atos 5.29 e o exemplo de Daniel ajudam a entender os limites da obediência às autoridades?
- De que maneira você pode honrar e orar por uma autoridade em quem não votou?
- Que atitudes concretas você pode tomar para exercer a cidadania depois das eleições, sem partidarismo e sem omissão?
Fontes
- Bíblia Sagrada — Romanos 1.10-13; 12.17-21; 13.1-10; 15.23-26; Mateus 22.21; Atos 4.19-20; 5.29; 16.37; 18.2; 22.25; 25.11; Êxodo 1.17; Daniel 3; 6.10; Filipenses 3.20; 1 Timóteo 2.1-2; Tito 3.1; 1 Pedro 2.13-17.
- Tribunal Superior Eleitoral — Eleições 2026: confira as principais datas do calendário eleitoral (06/03/2026, atualizado em 14/07/2026). https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Marco/eleicoes-2026-confira-as-principais-datas-do-calendario-eleitoral
Imagem de capa: Unsplash (Unsplash License)