Numa tarde de domingo, 19 de agosto de 1855, cinco crianças se reuniram numa casa em Petrópolis (RJ) para ouvir a história do profeta Jonas. A aula, dada pelo médico escocês Robert Reid Kalley e por sua esposa, Sarah Poulton Kalley, é lembrada como o marco inicial da escola dominical no Brasil. Três anos depois, o casal organizaria no Rio de Janeiro a Igreja Evangélica Fluminense.
A trajetória dos Kalley é uma das mais marcantes da história missionária em língua portuguesa. Ela passa por perseguição, exílio, perseverança e por uma contribuição que ainda ecoa nos cultos evangélicos brasileiros: o hinário Salmos e Hinos.
De Glasgow à Ilha da Madeira
Robert Reid Kalley nasceu em 8 de setembro de 1809, na região de Glasgow, na Escócia, e formou-se em Medicina em 1829. Em 1838, mudou-se para a Ilha da Madeira, em Portugal, inicialmente por motivos de saúde. No Funchal, abriu escolas, um hospital e um serviço de consultas médicas, e passou a distribuir Bíblias e a evangelizar.
O trabalho provocou reação. Em 1843, Kalley foi preso e passou alguns meses na cadeia. Em 8 de maio de 1845, organizou no Funchal uma congregação protestante portuguesa. A tensão com as autoridades e com parte da população local cresceu e, em agosto de 1846, a casa da família foi atacada. Kalley precisou deixar a ilha às pressas. Muitos madeirenses convertidos também partiram para o exílio, sobretudo para Trinidad e para os Estados Unidos, onde parte deles se fixou no estado de Illinois.
A experiência da Madeira mostra que a fé do casal foi provada antes de chegar ao Brasil. “Todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos”, escreveu Paulo (2 Timóteo 3.12).
A chegada ao Brasil
Depois da morte da primeira esposa, Kalley casou-se com a inglesa Sarah Poulton. O casal chegou ao Rio de Janeiro em 10 de maio de 1855 e, em junho, mudou-se para Petrópolis. Foi lá que começou a escola dominical, com cinco crianças, filhos de cidadãos americanos, segundo os registros históricos.
O Brasil do Império tinha o catolicismo como religião oficial: a Constituição de 1824 permitia às demais religiões apenas o culto doméstico ou particular, em casas sem forma exterior de templo. Segundo artigo sobre a história dos congregacionais publicado no portal Teologia Brasileira, Kalley conseguiu junto às autoridades o direito à celebração de casamentos e sepultamentos em liturgias protestantes, um marco para os não católicos da época.
A Igreja Evangélica Fluminense
Em 11 de julho de 1858, o casal organizou no Rio a Igreja Evangélica Fluminense, com 14 membros. No mesmo dia foi batizado o primeiro brasileiro da igreja, Pedro Nolasco de Andrade. A comunidade não tinha vínculo com denominações estrangeiras e é considerada por historiadores do protestantismo a primeira igreja evangélica brasileira. Ela funciona até hoje no centro do Rio de Janeiro.
O mesmo artigo do portal Teologia Brasileira registra que Kalley dava aulas em classes mistas, de brancos e negros, nas décadas de 1850 e 1860, e que proibia que membros da Igreja Evangélica Fluminense fossem senhores de escravos, décadas antes da Abolição (1888).
Salmos e Hinos: a teologia cantada
A contribuição de Sarah Kalley merece destaque próprio. Em 1861, saiu no Rio de Janeiro a primeira edição de Salmos e Hinos, produzida principalmente por ela, com a colaboração do marido. Tinha 50 cânticos: 18 salmos e 32 hinos. Edições posteriores ampliaram a coletânea.
O hinário tornou-se a primeira coletânea de cânticos para culto público evangélico no Brasil e foi adotado por outras tradições protestantes durante boa parte do século XX. O clássico estudo do pesquisador Antônio Gouvêa Mendonça sobre o protestantismo brasileiro, O Celeste Porvir, tem o título tirado de um dos hinos da coletânea.
Paulo exortou os colossenses a se ensinarem uns aos outros “com salmos, e hinos, e cânticos espirituais” (Colossenses 3.16). Sarah Kalley levou essa instrução ao pé da letra, dando à igreja brasileira canções em português para aprender a doutrina cantando.
Retorno à Escócia e legado
Os Kalley ficaram cerca de 21 anos no Brasil. Robert voltou à Escócia em 1876, e o pastorado da Igreja Evangélica Fluminense passou a João Manoel Gonçalves dos Santos. Robert morreu em Edimburgo em 17 de janeiro de 1888.
As igrejas ligadas ao trabalho do casal realizaram sua primeira convenção em 1913. Depois de mudanças de nome, desde 1969 a maior parte delas se reúne na União das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil (UIECB). O próprio Kalley, porém, não usava o termo “congregacional”: suas igrejas se chamavam apenas “evangélicas”.
Lições para a missão hoje
- Missão integral desde o início. Medicina, escola, Bíblia e culto caminharam juntos, na Madeira e no Brasil.
- Crianças no centro. A primeira aula foi para cinco crianças. Investir na formação bíblica dos pequenos não é tarefa menor.
- Cultura local. Hinos em português, liderança brasileira e uma igreja sem dependência estrangeira foram escolhas estratégicas.
- Casais em missão. O ministério de Sarah mostra que o trabalho missionário raramente é obra de uma só pessoa.
“Lembrai-vos dos vossos guias, os quais vos pregaram a palavra de Deus; e, considerando atentamente o fim da sua vida, imitai a fé que tiveram” (Hebreus 13.7). Os Kalley estão entre esses guias da igreja brasileira.
Fontes
- Wikipédia (PT), “Robert Kalley”: https://pt.wikipedia.org/wiki/Robert_Kalley
- Teologia Brasileira, “Os congregacionais no Brasil (1855–2015)”: https://teologiabrasileira.com.br/os-congregacionais-no-brasil-1855-2015/
- Teologia Brasileira, “Os congregacionais: origem, inserção e contribuições”: https://teologiabrasileira.com.br/os-congregacionais-origem-insercao-e-contribuicoes/
- Constituição Política do Império do Brasil (1824), art. 5º: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao24.htm
- Seminário JMC, “A Origem da Escola Dominical no Brasil – Parte 2”: https://www.seminariojmc.br/a-origem-da-escola-dominical-no-brasil-parte-2/
- Bíblia Sagrada, Almeida Revista e Atualizada (ARA): 2 Timóteo 3.12; Colossenses 3.16; Hebreus 13.7.
Imagem de capa: Núcleo de digitalização / Instituto Moreira Salles / Wikimedia Commons (domínio público)