Quantos missionários o Brasil envia ao mundo? A resposta depende de quem conta e de como conta. O levantamento mais citado entre evangélicos, a pesquisa Força Missionária Brasileira 2022, da Associação de Missões Transculturais Brasileiras (AMTB), chegou a cerca de 19 mil missionários transculturais, dos quais 52% atuavam fora do país. Já o relatório internacional do Movimento de Lausanne, publicado em 2024 com dados de 2020, estima que o Brasil envia 40 mil missionários cristãos, o que coloca o país entre os maiores emissores do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Entender a diferença entre esses números ajuda a igreja a enxergar o tamanho real do seu envolvimento e os desafios que ele traz.
O retrato da AMTB: 19 mil missionários
A AMTB reúne agências e igrejas envolvidas em missões transculturais. Sua pesquisa de 2022, coordenada pelo pastor Felipe Fulanetto e noticiada pela revista Comunhão em julho de 2023, trouxe estes números principais:
- cerca de 19 mil missionários transculturais brasileiros, com taxa de crescimento anual estimada em 5%;
- 52% atuando no exterior e 48% no Brasil (em contextos transculturais, como povos indígenas e outras comunidades de cultura diferente);
- 52% mulheres e 48% homens;
- idade média de 44 anos, com saída para o campo, em média, aos 30;
- 80% casados, 18% solteiros;
- 90% com formação teológica e 10% sem nenhum preparo específico.
Os cinco principais lugares de atuação apontados pela pesquisa foram, nesta ordem: o próprio Brasil, Portugal, Moçambique, Guiné-Bissau e Paraguai. O peso dos países lusófonos mostra como a língua comum abre portas, e o Paraguai reflete a proximidade geográfica e cultural.
Como os números evoluíram
A pesquisa anterior da AMTB, apresentada em outubro de 2017 no VIII Congresso Brasileiro de Missões, havia contado 15 mil missionários. Em texto publicado pela Ultimato em novembro daquele ano, Felipe Fulanetto registrou dados que continuam relevantes para as igrejas que enviam:
- 41,2% atuavam em evangelismo e 37,7% em plantação de igrejas;
- apenas 27,6% haviam recebido treinamento linguístico;
- 26,3% não tinham cuidado previsto para a volta (a chamada reentrada);
- 30,2% tinham apenas o ensino médio.
A comparação entre 2017 e 2022 sugere crescimento, mas é bom lembrar que as pesquisas dependem da resposta de agências, igrejas e missionários. Quem não respondeu não entra na conta.
A AMTB lançou em outubro de 2024 a Pesquisa Força Missionária Brasileira 2025, com três questionários (para organizações, missionários e igrejas locais), com o objetivo de “atualizar a localização e a quantidade dos missionários transculturais brasileiros”. A previsão divulgada era apresentar o relatório no Congresso Brasileiro de Missões de outubro de 2025, em Águas de Lindóia (SP). Até a publicação desta matéria, não localizamos a divulgação pública desses resultados em fontes que pudéssemos consultar; por isso, os números de 2022 seguem como a referência mais recente da AMTB.
O retrato internacional: 40 mil e o segundo lugar
O relatório State of the Great Commission (Estado da Grande Comissão), lançado pelo Movimento de Lausanne em setembro de 2024 e baseado no World Christian Database, estima para 2020:
- cerca de 450 mil missionários cristãos no mundo;
- Estados Unidos: 135 mil enviados;
- Brasil: 40 mil enviados;
- Coreia do Sul: 35 mil;
- Filipinas: 25 mil, a maioria católicos.
A observação sobre as Filipinas revela a principal diferença metodológica: a base internacional conta missionários cristãos de diversas tradições, e não só evangélicos ligados a agências transculturais, como faz a AMTB. Por isso os números não se contradizem; medem coisas diferentes.
A posição do Brasil não é novidade. Em 2012, o jornal Christian Post noticiou dados do Center for the Study of Global Christianity, do Seminário Gordon-Conwell, segundo os quais o Brasil havia enviado 34 mil missionários em 2010, também o segundo maior número do mundo, atrás dos 127 mil dos Estados Unidos.
Nem todos os rankings coincidem. A reportagem da Comunhão sobre a pesquisa da AMTB, por exemplo, apresentou o Brasil como o quinto maior emissor, depois de Estados Unidos, Coreia do Sul, Índia e China, sem detalhar a base usada. A posição exata varia conforme o critério; o consenso é que o Brasil está entre os maiores emissores do mundo.
Um dado que desafia: para onde vão os missionários
O mesmo relatório de Lausanne, segundo reportagem da Christianity Today de setembro de 2024, aponta que cerca de 97% dos missionários do mundo são enviados a povos que já têm acesso ao evangelho. O dado não diminui o valor do trabalho em países de maioria cristã, como o apoio a igrejas locais, mas convida a igreja brasileira a perguntar se está investindo também entre povos com pouco ou nenhum testemunho cristão.
O relatório também registra uma mudança de eixo: com exceção da Europa, todas as regiões do mundo hoje enviam e recebem mais missionários do que há 50 anos. Em reportagem da revista Show da Fé, de setembro de 2026, Felipe Fulanetto descreveu esse fenômeno como “uma reconfiguração da missão cristã em chave policêntrica”, em que a missão “deixou de ser monopólio do Ocidente”.
O que esses números pedem da igreja que envia
Ter milhares de brasileiros no campo é motivo de gratidão, mas os próprios levantamentos mostram pontos de atenção:
- Preparo: em 2017, só pouco mais de um quarto havia recebido treinamento linguístico. Aprender a língua e a cultura é parte da missão, não um detalhe.
- Cuidado integral: com idade média de 44 anos e 80% casados, boa parte dos missionários leva a família. Educação dos filhos, saúde e previdência precisam entrar no planejamento.
- Volta ao Brasil: mais de um quarto não tinha apoio previsto para a reentrada. A igreja que envia também precisa estar pronta para receber de volta.
- Transparência: quem sustenta missionários deve saber onde estão, o que fazem e como os recursos são usados. Os critérios que sugerimos estão no guia Antes de apoiar um projeto missionário.
- Contexto de risco: parte dos missionários atua em países onde cristãos enfrentam restrições. Vale acompanhar o cenário descrito na Lista Mundial da Perseguição 2026.
O envio missionário brasileiro nasceu, em boa medida, de igrejas com poucos recursos que decidiram obedecer a Mateus 28.19. Os números mostram que essa obediência cresceu. O desafio agora é cuidar bem de quem foi enviado e continuar olhando para os lugares onde o evangelho ainda não chegou.
Fontes
- Comunhão — Brasil: o quinto país que mais “exporta” missionários (20/07/2023). https://comunhao.com.br/brasil-o-quinto-pais-que-mais-exporta-missionarios/
- Ultimato (Caminhos da Missão) — Somos 15 mil missionários brasileiros! (13/11/2017). https://ultimato.com.br/sites/caminhosdamissao/2017/11/13/somos-15-mil-missionarios-brasileiros/
- Ultimato — Pesquisa Força Missionária Brasileira 2025 quer saber como e onde estão os missionários brasileiros (30/10/2024). https://www.ultimato.com.br/conteudo/pesquisa-forca-missionaria-brasileira-2025-quer-saber-como-e-onde-estao-os-missionarios-brasileiros
- Comunhão — AMTB lança a Pesquisa Força Missionária Brasileira 2025 (01/11/2024). https://comunhao.com.br/amtb-lanca-a-pesquisa-forca-missionaria-brasileira-2025/
- Christianity Today — Lausanne Report: Most Missionaries Are Reaching the Reached (25/09/2024). https://www.christianitytoday.com/2024/09/lausanne-missions-state-great-commission-christianity-polycentrism/
- Movimento de Lausanne — State of the Great Commission: Mission Workers (2024). https://lausanne.org/report/mission-workers
- Christian Post — Brazil Becomes Second-Largest Christian Missionary Exporter in the World (22/02/2012). https://www.christianpost.com/news/brazil-becomes-second-largest-christian-missionary-exporter-in-the-world.html
- Revista Show da Fé — Crescimento das igrejas evangélicas do Sul Global impulsiona fluxo missionário brasileiro em países desenvolvidos (25/09/2026). https://revistashowdafe.com.br/noticias/crescimento-das-igrejas-evangelicas-do-sul-global-impulsiona-fluxo-missionario-brasileiro-em-paises-desenvolvidos-326/
Imagem de capa: TomasVial / Wikimedia Commons (CC0)