Hortaliças e alimentos frescos

Neste 16 de outubro, Dia Mundial da Alimentação, o Brasil tem motivos para comemorar e para continuar trabalhando. O relatório da ONU sobre segurança alimentar no mundo (SOFI 2026), lançado em julho, confirmou que o país segue fora do Mapa da Fome e estimou em 0,6% da população, cerca de 1,2 milhão de pessoas, a insegurança alimentar severa no triênio 2023-2025, o menor nível da série. Ao mesmo tempo, a pesquisa do IBGE mostra que, em 2024, um em cada quatro domicílios brasileiros ainda enfrentava algum grau de insegurança alimentar. Para as igrejas, que há décadas distribuem cestas e servem refeições, os dados ajudam a entender onde a necessidade continua.

Por que 16 de outubro

A data lembra a criação da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em 16 de outubro de 1945. A primeira celebração do Dia Mundial da Alimentação ocorreu em 1981, com o tema “A comida vem primeiro”. Desde então, a data é usada para chamar atenção para a fome e o desperdício de alimentos.

O que diz o IBGE: 24,2% dos lares com insegurança alimentar

O módulo de segurança alimentar da PNAD Contínua 2024, divulgado pelo IBGE em 10 de outubro de 2025, usa a Escala Brasileira de Insegurança Alimentar. Os principais resultados:

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  • 75,8% dos domicílios (59,4 milhões) estavam em segurança alimentar em 2024, contra 72,4% em 2023;
  • 24,2% (18,9 milhões de domicílios, onde vivem 54,7 milhões de pessoas) tinham algum grau de insegurança alimentar, contra 27,6% em 2023;
  • insegurança leve: 16,4% (18,2% em 2023);
  • insegurança moderada: 4,5% (5,3% em 2023);
  • insegurança grave, quando há experiência de fome no domicílio, inclusive entre menores de 18 anos: 3,2%, cerca de 2,5 milhões de lares (4,1% e 3,1 milhões em 2023), uma queda de 19,9% em um ano.

Segundo reportagem da CNN Brasil sobre os dados, cerca de 6,5 milhões de pessoas viviam em domicílios com insegurança alimentar grave em 2024.

As desigualdades regionais continuam fortes. A soma de insegurança moderada e grave chegava a 14,1% dos domicílios no Norte e 12,3% no Nordeste, contra 5,5% no Sudeste e 3,8% no Sul. Considerando todos os níveis, 37,7% dos lares do Norte e 34,8% dos do Nordeste tinham alguma insegurança alimentar. Entre os domicílios com insegurança grave, 56,9% tinham como responsável uma pessoa parda.

O que diz a ONU: fora do Mapa da Fome

O relatório SOFI 2026, publicado por FAO, FIDA, OMS, PMA e UNICEF, estima que cerca de 645 milhões de pessoas passaram fome no mundo em 2025, 7,8% da população global. Para o Brasil, os números do triênio 2023-2025 mostram:

  • prevalência de subalimentação abaixo de 2,5%, limite abaixo do qual um país deixa o Mapa da Fome;
  • insegurança alimentar severa de 0,6% da população (1,2 milhão de pessoas);
  • insegurança alimentar moderada ou severa de 9,6% (20,3 milhões de pessoas), contra 22,1% no triênio 2020-2022;
  • 21,1% da população (44,8 milhões de pessoas) sem condições de pagar por uma dieta saudável em 2025, contra 31,1% em 2021.

Os números do IBGE e da ONU não são diretamente comparáveis: um mede domicílios em um ano, o outro estima pessoas em médias de três anos, com metodologias diferentes. Mas apontam na mesma direção: a fome diminuiu, e ainda há milhões de brasileiros que não têm acesso regular a comida suficiente e de qualidade.

A Rede PENSSAN, que realizou os inquéritos nacionais sobre insegurança alimentar durante e após a pandemia, não tinha, até o fechamento desta matéria, novo levantamento nacional que pudéssemos consultar.

Bancos de alimentos: a ponte entre o desperdício e a mesa

Uma das frentes mais eficazes contra a fome é evitar que comida boa vá para o lixo. Segundo o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), os bancos de alimentos são equipamentos públicos ou privados, sem fins lucrativos, que captam doações de empresas, produtores rurais, programas governamentais e campanhas; selecionam os itens seguros para consumo; fazem processamento mínimo quando necessário; e distribuem a instituições parceiras, como entidades de assistência social, cozinhas comunitárias e unidades de saúde. Podem ser geridos pelo poder público, pela rede Mesa Brasil Sesc, por Ceasas ou por organizações da sociedade civil.

A Lei 14.016/2020 deu segurança jurídica a esse caminho. Ela permite que produtores, indústrias, supermercados, restaurantes, hospitais e escolas doem alimentos excedentes dentro da validade e próprios para consumo, de forma gratuita. O doador só responde por problemas se agir com dolo ou culpa grave no manuseio, armazenamento ou transporte.

O lugar das igrejas

A tradição bíblica trata o cuidado com quem tem fome como parte da fé. A lei de Moisés mandava deixar as sobras da colheita para o pobre e o estrangeiro (Levítico 19.9-10); Jesus alimentou multidões (Marcos 6.30-44) e disse que servir ao faminto é servir a Ele (Mateus 25.35). A igreja primitiva organizou a distribuição diária de alimento às viúvas (Atos 6.1-6), um exemplo antigo de trabalho social com regras e responsáveis.

No Brasil de hoje, a legislação abre espaço para esse serviço. A Lei 13.019/2014 reconhece como organizações da sociedade civil “as organizações religiosas que se dediquem a atividades ou a projetos de interesse público e de cunho social distintas das destinadas a fins exclusivamente religiosos”. E a Lei 14.628/2023, que criou o Programa Cozinha Solidária, prevê alimentação gratuita, preferencialmente para pessoas em vulnerabilidade, inclusive a população em situação de rua, com parcerias com entidades sem fins lucrativos.

Como a sua igreja pode agir

  • Mapeie a necessidade local. O Norte e o Nordeste concentram os piores índices, mas há fome em todas as regiões. Converse com o CRAS do bairro para saber onde estão as famílias mais vulneráveis.
  • Conheça o banco de alimentos da sua cidade. Em vez de comprar tudo, a igreja pode se cadastrar como instituição parceira e receber doações para distribuir.
  • Pense em qualidade, não só em quantidade. Com 44,8 milhões de brasileiros sem condições de pagar por uma dieta saudável, incluir frutas, verduras e proteínas faz diferença.
  • Cuide da higiene. Quem prepara ou distribui refeições precisa seguir regras sanitárias; um curso básico de boas práticas para os voluntários é um bom investimento.
  • Vá além da cesta. Encaminhar famílias ao Cadastro Único, apoiar a busca por emprego e oferecer cursos de capacitação ajudam a sair da insegurança alimentar de forma duradoura.
  • Seja transparente. Registre o que entra e o que sai; se o trabalho crescer, formalize-o. Se a igreja apoia um projeto de terceiros, use os critérios do guia Antes de apoiar um projeto missionário.

A queda da fome no Brasil mostra que a situação pode mudar. Mas, enquanto houver 2,5 milhões de lares onde falta comida, o Dia Mundial da Alimentação continua sendo, para os cristãos, um lembrete prático de Isaías 58.10: repartir o pão com o faminto.

Fontes

Imagem de capa: Unsplash (Unsplash License)

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