Na Amazônia, a maior barreira para a missão muitas vezes não é a língua nem a cultura, mas a distância. A missionária Valerie Brown, da Missão Evangélica da Amazônia (MEVA), descreveu o problema com precisão: “Se Asas não existisse, teríamos que viajar uns 100 km numa estrada bem ruim, passar uns três ou quatro dias de barco para chegar [em um ponto de apoio] e então mais seis horas de barco até […] onde estou trabalhando agora. Com Asas, em uma hora e quinze minutos eu chego”.
O depoimento, publicado pela própria organização, resume a razão de existir da Asas de Socorro, missão brasileira de aviação que completou 70 anos em 2025. Seu lema é “dando asas aos que dão suas vidas”. A programação do 16º Encontro Nacional da Rede Evangélica Nacional de Ação Social (Renas), de 24 a 26 de outubro de 2025, incluiu a celebração dos 70 anos da missão, segundo divulgou a editora Ultimato.
Como tudo começou
Segundo o histórico divulgado pela missão, a história começou em 1955, com a chegada ao Brasil dos missionários Harold e Elsie Berk, enviados pela Mission Aviation Fellowship (MAF), dos Estados Unidos. O objetivo era implantar a aviação missionária no país, especialmente na região Norte. O casal aprendeu português e se estabeleceu em Anápolis (GO), onde fundou o primeiro centro de manutenção de aeronaves.
Em 1956, outras famílias se juntaram ao trabalho, entre elas James Lomheim e o casal Paul e Jackie Lewis. Naquele ano aconteceu o primeiro voo missionário: James pilotou de Anápolis até Cuiabá (MT), em apoio à Missão aos Índios da América do Sul, que trabalhava com os povos Xavante, Bororo, Nhambiquara e Pareci. Também em 1956, a MAF comprou por US$ 500 um avião Piper PA-22 Tri-Pacer acidentado, de prefixo PT-AOR.
A recuperação do avião mostra o espírito daqueles pioneiros: em 1957, Harold e James reconstruíram o PT-AOR no quintal de casa. Com ele, começou o apoio logístico à missão Wycliffe (SIL) e à SAIM. No mesmo período, chegou a família de Eldon e Sylvia Larsen, com mais uma aeronave, e se estabeleceu em Bonfim (RR).
Sete décadas de expansão
O histórico da organização registra marcos como estes:
- 1958: construção do primeiro hangar da oficina de manutenção, em Anápolis.
- 1969: abertura da base de Boa Vista (RR), com voos em apoio à MEVA e à Missão Novas Tribos do Brasil.
- 1972: criação da Escola de Aviação Asas de Socorro, para formar pilotos e mecânicos para a obra missionária.
- 1976: abertura da base de Manaus (AM).
- 1985: primeira edição do Programa de Assistência Médica, Dentária e Evangelística (AMDE), precursor do atual Projeto IDE.
- 1995: autonomia em relação à MAF. Até então, a Asas funcionava como extensão da missão americana no país.
- 2018: sede administrativa unificada junto ao hangar e à escola de aviação, em Anápolis.
- 2019: primeira vez que recebeu o Selo Doar, certificação de transparência e gestão.
A organização informa ter o título de Utilidade Pública Federal (Decreto nº 86.871, de 25 de janeiro de 1982). Hoje mantém bases em Anápolis (GO), Boa Vista (RR), Manaus (AM) e Porto Velho (RO).
Muito além do transporte
A missão se define como “uma organização cristã comprometida com a prática da Missão de Deus, por meio da Logística Aérea e do Desenvolvimento Comunitário Integral para populações de difícil acesso, no interior da Amazônia”.
Na prática, isso inclui:
- voos missionários e transporte por barco, levando missionários, suprimentos e equipamentos a locais de difícil acesso (ao Portal 6, site de notícias de Anápolis, um piloto da missão explicou que a entidade usa “aeronaves e barcos” para chegar a comunidades isoladas);
- socorro emergencial a comunidades isoladas, a partir das bases do Norte;
- viagens missionárias e projetos sociais, coordenados principalmente pela base de Manaus, que segundo a organização recebe centenas de voluntários por ano;
- ações com comunidades ribeirinhas, como a Missão Puxirum Ribeirinho, descrita em boletim da própria missão como uma viagem de presença e escuta, de casa em casa;
- educação, em parceria com a Faculdade de Ciências, Educação e Teologia do Norte do Brasil (Faceten), em Roraima.
Por que a logística é parte da missão
É comum pensar em missões apenas como pregação, tradução ou plantação de igrejas. A história da Asas de Socorro lembra que, desde o início, a obra missionária dependeu de quem cuida da retaguarda. Paulo agradeceu aos filipenses porque, “até para Tessalônica mandastes não somente uma vez, mas duas, o bastante para as minhas necessidades” (Filipenses 4.16). João elogiou Gaio por acolher os missionários e escreveu: “devemos acolher esses irmãos, para nos tornarmos cooperadores da verdade” (3 João 8).
Pilotos, mecânicos, administradores e voluntários de saúde são, nesse sentido, cooperadores da verdade. Sem eles, muitos missionários simplesmente não chegariam aos campos, ou levariam dias para fazer o que o avião faz em horas. “E como pregarão, se não forem enviados?”, pergunta Romanos 10.15.
Como a igreja local pode apoiar
A experiência de missões de logística sugere caminhos concretos para igrejas que querem se envolver com a Amazônia:
- Orar pelos voos e pelas equipes. A aviação em áreas remotas exige segurança, manutenção rigorosa e boas condições climáticas.
- Contribuir com regularidade. Aviação é cara e depende de apoio constante. Antes de doar a qualquer missão, verifique relatórios, certificações e prestação de contas.
- Enviar voluntários preparados. Profissionais de saúde, educadores e técnicos podem servir em viagens missionárias organizadas, desde que respeitem as regras das comunidades e das autoridades.
- Incentivar vocações técnicas. Jovens interessados em aviação ou mecânica podem enxergar na profissão um chamado missionário.
- Apoiar quem já está no campo. Muitas missões atendidas pela aviação, como as que trabalham com povos indígenas e ribeirinhos, também precisam de sustento.
Setenta anos depois do primeiro voo, a lição dos pioneiros de Anápolis continua atual: a missão avança quando cada um oferece o que tem, seja um avião reconstruído no quintal, uma oferta ou horas de oração.
Fontes
- Asas de Socorro, “Quem Somos” (histórico, bases e certificações): https://www.asasdesocorro.org/qs
- Asas de Socorro, página inicial (missão, notícias, Missão Puxirum Ribeirinho e parceria com a Faceten): https://www.asasdesocorro.org/
- Ultimato, “Vem aí o 16º Encontro Nacional de RENAS”: https://www.ultimato.com.br/conteudo/vem-ai-o-16-encontro-nacional-de-renas
- Portal 6, “Organização que nasceu de famílias americanas marca história com ações sociais em Anápolis” (5 dez. 2022): https://portal6.com.br/2022/12/05/organizacao-que-nasceu-de-familias-americanas-marca-historia-com-acoes-sociais-em-anapolis/
- Bíblia Sagrada, Almeida Revista e Atualizada (ARA): Romanos 10.15; Filipenses 4.16; 3 João 8.
Imagem de capa: lubasi / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)