Vista aérea do rio Solimões serpenteando pela floresta amazônica (imagem ilustrativa)
Imagem: lubasi / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)

Na Amazônia, a maior barreira para a missão muitas vezes não é a língua nem a cultura, mas a distância. A missionária Valerie Brown, da Missão Evangélica da Amazônia (MEVA), descreveu o problema com precisão: “Se Asas não existisse, teríamos que viajar uns 100 km numa estrada bem ruim, passar uns três ou quatro dias de barco para chegar [em um ponto de apoio] e então mais seis horas de barco até […] onde estou trabalhando agora. Com Asas, em uma hora e quinze minutos eu chego”.

O depoimento, publicado pela própria organização, resume a razão de existir da Asas de Socorro, missão brasileira de aviação que completou 70 anos em 2025. Seu lema é “dando asas aos que dão suas vidas”. A programação do 16º Encontro Nacional da Rede Evangélica Nacional de Ação Social (Renas), de 24 a 26 de outubro de 2025, incluiu a celebração dos 70 anos da missão, segundo divulgou a editora Ultimato.

Como tudo começou

Segundo o histórico divulgado pela missão, a história começou em 1955, com a chegada ao Brasil dos missionários Harold e Elsie Berk, enviados pela Mission Aviation Fellowship (MAF), dos Estados Unidos. O objetivo era implantar a aviação missionária no país, especialmente na região Norte. O casal aprendeu português e se estabeleceu em Anápolis (GO), onde fundou o primeiro centro de manutenção de aeronaves.

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Em 1956, outras famílias se juntaram ao trabalho, entre elas James Lomheim e o casal Paul e Jackie Lewis. Naquele ano aconteceu o primeiro voo missionário: James pilotou de Anápolis até Cuiabá (MT), em apoio à Missão aos Índios da América do Sul, que trabalhava com os povos Xavante, Bororo, Nhambiquara e Pareci. Também em 1956, a MAF comprou por US$ 500 um avião Piper PA-22 Tri-Pacer acidentado, de prefixo PT-AOR.

A recuperação do avião mostra o espírito daqueles pioneiros: em 1957, Harold e James reconstruíram o PT-AOR no quintal de casa. Com ele, começou o apoio logístico à missão Wycliffe (SIL) e à SAIM. No mesmo período, chegou a família de Eldon e Sylvia Larsen, com mais uma aeronave, e se estabeleceu em Bonfim (RR).

Sete décadas de expansão

O histórico da organização registra marcos como estes:

  • 1958: construção do primeiro hangar da oficina de manutenção, em Anápolis.
  • 1969: abertura da base de Boa Vista (RR), com voos em apoio à MEVA e à Missão Novas Tribos do Brasil.
  • 1972: criação da Escola de Aviação Asas de Socorro, para formar pilotos e mecânicos para a obra missionária.
  • 1976: abertura da base de Manaus (AM).
  • 1985: primeira edição do Programa de Assistência Médica, Dentária e Evangelística (AMDE), precursor do atual Projeto IDE.
  • 1995: autonomia em relação à MAF. Até então, a Asas funcionava como extensão da missão americana no país.
  • 2018: sede administrativa unificada junto ao hangar e à escola de aviação, em Anápolis.
  • 2019: primeira vez que recebeu o Selo Doar, certificação de transparência e gestão.

A organização informa ter o título de Utilidade Pública Federal (Decreto nº 86.871, de 25 de janeiro de 1982). Hoje mantém bases em Anápolis (GO), Boa Vista (RR), Manaus (AM) e Porto Velho (RO).

Muito além do transporte

A missão se define como “uma organização cristã comprometida com a prática da Missão de Deus, por meio da Logística Aérea e do Desenvolvimento Comunitário Integral para populações de difícil acesso, no interior da Amazônia”.

Na prática, isso inclui:

  • voos missionários e transporte por barco, levando missionários, suprimentos e equipamentos a locais de difícil acesso (ao Portal 6, site de notícias de Anápolis, um piloto da missão explicou que a entidade usa “aeronaves e barcos” para chegar a comunidades isoladas);
  • socorro emergencial a comunidades isoladas, a partir das bases do Norte;
  • viagens missionárias e projetos sociais, coordenados principalmente pela base de Manaus, que segundo a organização recebe centenas de voluntários por ano;
  • ações com comunidades ribeirinhas, como a Missão Puxirum Ribeirinho, descrita em boletim da própria missão como uma viagem de presença e escuta, de casa em casa;
  • educação, em parceria com a Faculdade de Ciências, Educação e Teologia do Norte do Brasil (Faceten), em Roraima.

Por que a logística é parte da missão

É comum pensar em missões apenas como pregação, tradução ou plantação de igrejas. A história da Asas de Socorro lembra que, desde o início, a obra missionária dependeu de quem cuida da retaguarda. Paulo agradeceu aos filipenses porque, “até para Tessalônica mandastes não somente uma vez, mas duas, o bastante para as minhas necessidades” (Filipenses 4.16). João elogiou Gaio por acolher os missionários e escreveu: “devemos acolher esses irmãos, para nos tornarmos cooperadores da verdade” (3 João 8).

Pilotos, mecânicos, administradores e voluntários de saúde são, nesse sentido, cooperadores da verdade. Sem eles, muitos missionários simplesmente não chegariam aos campos, ou levariam dias para fazer o que o avião faz em horas. “E como pregarão, se não forem enviados?”, pergunta Romanos 10.15.

Como a igreja local pode apoiar

A experiência de missões de logística sugere caminhos concretos para igrejas que querem se envolver com a Amazônia:

  1. Orar pelos voos e pelas equipes. A aviação em áreas remotas exige segurança, manutenção rigorosa e boas condições climáticas.
  2. Contribuir com regularidade. Aviação é cara e depende de apoio constante. Antes de doar a qualquer missão, verifique relatórios, certificações e prestação de contas.
  3. Enviar voluntários preparados. Profissionais de saúde, educadores e técnicos podem servir em viagens missionárias organizadas, desde que respeitem as regras das comunidades e das autoridades.
  4. Incentivar vocações técnicas. Jovens interessados em aviação ou mecânica podem enxergar na profissão um chamado missionário.
  5. Apoiar quem já está no campo. Muitas missões atendidas pela aviação, como as que trabalham com povos indígenas e ribeirinhos, também precisam de sustento.

Setenta anos depois do primeiro voo, a lição dos pioneiros de Anápolis continua atual: a missão avança quando cada um oferece o que tem, seja um avião reconstruído no quintal, uma oferta ou horas de oração.

Fontes

Imagem de capa: lubasi / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)

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